Modelo: Um Estudo de Caso
É com o orgulho plácido de um pai que testemunha o crescimento do próprio filho que abro a tribuna deste blog hoje. Quando concebi este espaço, meu desejo era abrigar reflexões agudas, livres da superficialidade e focadas na precisão das ideias, e a contribuição que lhes apresento agora é a prova irrefutável de que essa semente germinou e já atrai a melhor das companhias. O texto a seguir nos foi enviado por um perspicaz terapeuta de inclinação filo-girardiana — o qual, não só pelo segredo de ofício, mas também pela vontade comprovar seu próprio desinteresse comercial em novos clientes, não se identificará. Munido de um bisturi cirúrgico, ele disseca a economia psíquica e a mecânica da vaidade em nossas redes sociais, partindo de um instigante episódio ocorrido entre um paciente seu e um célebre "deus da escrita" no Instagram. O que vocês lerão abaixo não é apenas um estudo de caso sobre o mimetismo digital, mas uma aula magistral de como a verdadeira inteligência serve-se da clareza para desmascarar o espetáculo. Com a palavra, o nosso convidado:
Há algo intrinsecamente irônico na expressão "celebridade de internet", pois, diante da fragmentação arquitetada pelas redes sociais, a celebridade digital não passa de uma celebridade de gueto. Trago aos anais deste blog um estudo de caso que se dá nesse contexto, protagonizado por um paciente meu, dotado de certa curiosidade intelectual, e um desses ídolos de nicho, um deus que não pode ser nomeado, um verdadeiro Javé tupiniquim da escrita e dos estudos girardianos.
A situação iniciou-se quando meu paciente, buscando um diálogo horizontal sobre a clareza e sua relação muitas vezes conflituosa com a inteligência, resolveu testar o ídolo em seu próprio terreno. Nosso Javé, de fato, tem um curso onde promete ajudar o aluno a escrever com clareza. Meu paciente enviou-lhe uma mensagem privada com uma reflexão sincera e provocativa: "Machado de Assis, que é inegavelmente superior, demonstra mais inteligência e menos clareza do que Graciliano Ramos, que é inferior. Sendo assim, por que a clareza ranqueia tão bem hoje em dia? Sinta-se livre para responder algo postável nos stories como divulgação de seu curso de escrita clara". A resposta a essa provocação e oportunidade de fala, no entanto, não veio na forma de um debate de par com par, mas como uma esquiva performática, que deixou meu paciente como cão de Goya que vemos abaixo:
Em vez de continuar na planície da caixa de mensagens e, depois, tendo colhido aí a flor de uma reflexão feliz, levá-la até o alto dos stories para vender seu curso, como fora proposto pelo meu paciente, o ídolo transmutou a conversa num espetáculo sacrificial. Do alto desse altar efêmero, citando Dante Alighieri ("non ragioniam di lor, ma guarda e passa"), ele silenciou o interlocutor sem nomeá-lo, classificando a tentativa de diálogo como uma "pseudopolêmica idiota", à qual não se deveria prestar atenção. Para mim e, imagino, para o nosso Javé, uma pseudopolêmica define-se pela intenção fabricada de colocar em conflito dois polos que, numa visão mais sóbria, seriam perfeitamente conciliáveis. No entanto, o que se esconde por trás dessa recusa apressada não é uma simples subsunção intelectual e fria ao conceito de pseudopolêmica de um fato ocorrido no inferno do Instagram, mas uma manobra prática e calculada de sobrevivência mimética nesse mesmo inferno.
No pensamento clássico de René Girard, a perda do objeto de desejo ocorre pela rivalidade, onde o calor da disputa e a simetria do conflito apagam a importância da coisa em si, restando apenas a obsessão mútua de um contendor pelo outro. O caso relatado pelo meu paciente, contudo, revela uma versão sofisticada desse mecanismo: uma perda lúcida do objeto, não para gerar rivalidade diretamente, mas para gerar capital de modelo. O ídolo não abandonou o debate literário por estar cego pela rivalidade, mas exatamente para pairar acima dela. Ele errou de propósito, projetando uma intenção polemista onde existia, de fato, a vontade sincera e declarada do meu paciente de lhe fornecer uma oportunidade de fala. Ele poderia ter aproveitado a provocação na mensagem privada para argumentar que a inteligência cortês se manifesta justamente pela clareza, e que a obscuridade retórica funciona como veículo para a ignorância..., usando isso como um gancho perfeito para vender seus cursos. Mas não.
A sua recusa voluntária a essa oportunidade denuncia uma leitura maquiavélica de Girard. Ele não estuda o antropólogo francês para compreender e evitar os mecanismos miméticos de desigualação e rivalidade, mas sim como um manual de instruções para perpetrar o crime denunciado. E a sua genialidade reside justamente em saber aplicar com maestria essa teoria à economia da própria imagem. Essa perpetração do delito mimético consolida-se na forma como ele manipula o conceito de "palco", isto é o espaço simbólico de validação, performance e delimitação de hierarquias perante o outro.
Através da mensagem privada, que poderia, como declarado por meu paciente, ser recortada e replicada nos stories, meu paciente ofereceu-lhe afetuosamente um palco de vendedor, algo como um intervalo publicitário na comédia instagrâmica. Nesse cenário horizontal de uma mensagem privada, o ídolo sentaria à mesa como um par, argumentaria tecnicamente sobre o seu ofício e legitimaria o seu produto comercial, postando depois o resultado nos stories. Porém, o leitor maquiavélico de Girard sabe que um modelo transcendente é melhor do que um vendedor e talvez até venda mais. Para ativar o feitiço nas massas, o modelo não pode operar na planície dialética; ele precisa estar inalcançável. Ele não pode ser um mero vendedor.
É por isso que ele toma de assalto um segundo palco, o palco de celebridade de internet nos stories, construído com o sacrifício da afeição do meu paciente. Ao abandonar a privacidade das mensagens privadas e ascender aos stories sob o escudo de Dante, ele rejeitou o espaço utilitário do comércio e ergueu-se sem objetividade alguma sobre a polêmica original, assumindo a postura sereníssima de superioridade diante das "idiotices" alheias. Lá de cima, imolando o debate e a conexão humana, ele garante que sua audiência não olhe para o argumento lógico, mas sim para a sua aura, desejando possuir o estado de graça e o conhecimento que ele aparenta ter e que, de quebra, embala e vende. Genial.