Entre o Genial e o Ridículo
Ao revisitarmos o memorável discurso de 2015 na ONU, onde a então presidente Dilma Rousseff discorreu sobre a necessidade de "estocar vento", deparamo-nos com um choque cultural tipicamente brasileiro. Nossa tradição pública é filha do bacharelismo, esse apreço pela retórica floreada, onde a forma muitas vezes precede o conteúdo. Nesse cenário, a figura do tecnocrata, com sua linguagem fria e utilitária, já caminha em terreno hostil; quando a tecnocracia tropeça nas palavras, o descompasso se torna imperdoável. Naquele episódio, a expressão "estocar vento" é um desses tropeços e funcionou como um signo vitimário perfeito. Pouco importava a precisão física sobre a energia cinética; a frase tornou-se a marca necessária para que a opinião pública, sempre cansada e tensa, pudesse canalizar seu desprezo. O riso que se seguiu não foi apenas humor, mas um cimento social: ao ridicularizar a oradora, a sociedade purgada sentia-se, com uma ponta de vaidade, ao mesmo tempo mai...