Moraes, o Algoritmo
Recentemente, o ministro Alexandre de Moraes fez uma comparação que, sinceramente, não entendo como possa sair de um cabeça tão luzidia: ele comparou as Big Techs à Companhia das Índias Orientais. Essa analogia, digamo-lo enquanto é permitido, é uma retórica que destoa da sua alta envergadura enquanto ministro da Corte Suprema. Moraes parece tentar dar um peso histórico e moral a uma discussão sobre as grandes empresas de tecnologia, mas o resultado é, no máximo, uma tentativa de vincular algo contemporâneo a um ressentimento antigo.
Toda comparação, com efeito, precisa de um logos analogante — um ponto em comum entre os entes comparados que seja relevante e específico. Ou seja, esse ponto em comum precisa realmente tocar em um aspecto essencial dos dois objetos comparados. Caso contrário, o que se tem é apenas uma semelhança genérica e sem profundidade. Um exemplo básico: o ser pode ser atribuído a todo ente, mas, por ser um conceito tão inespecífico, não serve para gerar comparações substanciais. Para uma boa analogia, é necessário algo mais, algo que realmente revele indentidade essencial entre as partes. Comparar uma Big Tech a uma Companhia das Índias Orientais porque ambas não se submetem totalmente à soberania estatal é quase como dizer que todo ente é, com base no ser em comum, como outro ente. Não ajuda muito.
O ponto em comum para o qual Alexandre de Moraes apela, de fato, é uma vaga insubmissão à soberania estatal. Ora, se tomarmos isso como base para a analogia, qualquer organização que não se submeta à soberania estatal poderia, teoricamente, ser comparada às Big Techs: grupos criminosos transnacionais, o tráfico internacional de drogas, ou até mesmo qualquer seita secreta. A comparação de Moraes, portanto, não nos diz muito de relevante sobre as Big Techs ou sobre a Companhia das Índias Orientais. Ela falha porque não é específica e, consequentemente, não é útil para esclarecer a natureza das Big Techs no contexto contemporâneo.
O que realmente se esconde por trás dessa analogia forçada é um apelo claro aos ressentimentos brasileiros contra o legado colonial do Estado mercantil português, que usava a Companhia das Índias Orientais para dominar, explorar e submeter as colônias ao interesse da metrópole. Ao associar as gigantes tecnológicas às Companhias das Índias, o ministro parece querer estender esse ódio histórico contra o colonialismo para a nova realidade das Big Techs. É um jogo político que tenta fazer a plateia sentir que, ao odiar as Big Techs, está também expressando sua revolta contra um passado de exploração colonial. A tentativa de ganhar apoio através de um ressentimento coletivo, no entanto, não é nada mais do que uma manipulação retórica que se utiliza de uma analogia sem substância real.
O problema com esse tipo de retórica é que ela não busca iluminar ou esclarecer, mas sim manipular as emoções das pessoas. E, por falar em manipulação emocional, Alexandre de Moraes, ao promover uma retórica baseada em ressentimento e não em uma comunicação edificante, assemelha-se mais do que ele imagina ao que há de pior nas Big Techs. Assim como esses algoritmos de plataformas como Facebook e YouTube exploram as emoções mais baixas dos usuários para gerar cliques e engajamento, Moraes usa o ressentimento e a indignação como ferramentas para criar uma resposta emocional da plateia, sem fornecer uma reflexão profunda ou uma análise bem fundamentada. O ministro, ao fim e ao cabo, torna-se ele mesmo um algoritmo ambulante — um ser que, em vez de dialogar com a razão e com a verdade, busca apenas amplificar os sentimentos mais superficiais e imediatos de seu público.