A Travessia do Sentido
| A Torre de Babel, por Pieter Bruegel, o Velho |
Traduzir não é apenas um ofício: é uma operação cognitiva que todos realizamos diante do estranho. O encontro com o outro implica um gesto de tradução — tentativa de tornar compreensível o que, à primeira vista, nos escapa; de converter o alhures em terra nossa. Em contextos de migração ou de choque cultural, como aquele que marcou a conquista ibérica do que viria a ser a América Latina, essa operação se torna urgente. Os conquistadores, em sua ânsia de nomear o mundo novo, e os povos indígenas, em sua necessidade de compreender os estrangeiros, lançaram-se reciprocamente a um processo de tradução recíproca, onde o que estava em jogo não era apenas o sentido das palavras, mas o próprio sentido do mundo.
Foi assim que os “cristãos” europeus foram traduzidos para a língua e o imaginário guarani pelo termo karaí. O europeu, vindo de longe, aparecia aos olhos guaranis como alguém dotado da mesma energia de deslocamento que animava os profetas indígenas. De fato, antes dessa tradução, os karaí eram mestres tradicionais, figuras carismáticas dotadas de palavra inspirada e autoridade espiritual, que se apresentavam às comunidades indígenas como guias para a Terra sem Mal, e seu credenciamento se fundava também nessa itinerância. O karaí era, portanto, um líder caminhante, andando à frente sobre as águas ou subindo montanhas até o céu.
A tradução dos cristãos como karaí, porém, não foi baseada só na itinerância. Além desta, duas outras afinidades, mais principais, tornaram-na possível. Em primeiro lugar, o modo como o europeu se apresentava — como filho de Deus, enviado a transmitir uma palavra divina, o que o inscrevia na mesma gramática espiritual do carisma guarani. A segunda, que se revelará mais prenhe de confusões, foi a semelhança entre o discurso dos karaí tradicionais e a pregação cristã. Ambos procuravam converter o desejo humano, deslocando-o da rivalidade destrutiva para uma convivência pacífica e reconciliada. Em ambos havia um trabalho sobre o desejo: uma pedagogia do coração.
Essa semelhança discursiva, porém, escondia um conflito fatal. Os karaí tradicionais pregavam uma migração concreta — física, coletiva, em direção à Terra sem Mal —, enquanto os novos karaí cristãos, sobretudo no contexto das reduções jesuíticas, reinterpretaram essa travessia em chave espiritualizada. A migração passou a ser lida como passagem da alma para o paraíso depois da morte, não como deslocamento histórico. Desse modo, os jesuítas inverteram o movimento: ao invés de caminhar, os indígenas foram chamados a fixar-se nas cidades e aldeamentos, onde o caminho celeste se tornaria puramente interior. A palavra itinerante, que antes punha o povo em marcha, foi domesticada no espaço da redução. O novo karaí, cristão, nesse ponto, dava margem a ser visto não como mediação, mas como captura simbólica.
Assim se instaurou, ainda antes do advento da liberdade religiosa moderna, um conflito interno ao karaísmo — entre o profeta errante e o missionário sedentário, entre o êxodo e a fixação, entre a Terra sem Mal aqui e agora e o Céu post mortem. No horizonte político contemporâneo, esse acontecimento histórico permanece instrutivo. Até outro dia, pareceu evidente que o Estado, entre versões rivais do sagrado, deveria manter neutralidade, assegurando a liberdade de expressão como espaço de coexistência entre discursos concorrentes. Hoje, contudo, há uma tendência levada adiante pelos que defendem um regime das fake news, no qual o Estado, sob o pretexto de proteger a verdade, poderá vir a atribuir-se o papel de decidir entre os karaí — de determinar quais são os legítimos e silenciar os demais. A censura reaparece, travestida de zelo moral e tecnocrático...
O indígena, porém, é quem de fato tinha e tem que decidir entre os dois karaí, já que para ele — e, por extensão, para qualquer sujeito vivo e concreto, dotado de uma personalidade que é mais que uma ficção como o Estado -, a questão é vital. Diante de dois portadores da palavra, ele deve discernir qual deles conduz à vida e qual conduz à servidão. Essa decisão não pode ser delegada a nenhum ente que não esteja implicado visceralmente na sua resolução; esse discernimento, ao contrário, é existencial e deve ser feito, tanto quanto possível, em primeira pessoa.
A meu ver, a pedra de toque ética da verdadeira karaidade reside precisamente na recusa à violência, mesmo e principalmente no conflito com outras espiritualidades. O verdadeiro karaí não revida na mesma moeda, não se deixa arrastar pelo mimetismo do desejo rival, mas o desarma pela mansidão. Em última instância, essa mansidão encarna, na história, a própria verdade do cristianismo — aquela que, mais do que se provar por doutrina, transparece na conduta. Entre o karaí que migra e o karaí que fixa, entre o profeta indígena e o missionário cristão, joga-se ainda hoje o destino da alma: a de ser ponte, e não cárcere, entre o humano e o divino.