O Sacrifício da Missa


Outro dia comentava com minha esposa que, quando o povo é incensado na Santa Missa, esse gesto litúrgico significa que ele também será sacrificado como participante no sacrifício de Cristo. Participamos, pois, na oferta que Cristo faz de si mesmo ao Pai, assim como o sacerdote que celebra e as ofertas levadas ao altar. Esse símbolo, no entanto, remete a uma realidade menos bela e pomposa do que o rito: para além da liturgia, o povo cristão é sacrificial no sentido mais histórico e duro do termo. Poderíamos nos perguntar, então, se a história imita a liturgia ou se a liturgia imita a história. A meu ver, na biografia individual, é a liturgia que prefigura o destino histórico de cada fiel, ou, se preferirmos, é a história, profetizada no altar, que acaba por reproduzir o drama da Missa. No entanto, na ordem geral dos acontecimentos, é a liturgia que recolhe e seleciona o que antes aconteceu no mundo. 

Sobre o caráter sacrificial do povo cristão, basta recordar o testemunho de Justino Mártir. Nos primeiros séculos, havia inúmeros deuses reconhecidos no mundo greco-romano, e, entre os diversos cultos existentes, a acusação de idolatria era moeda comum. Os cristãos, portanto, não eram os únicos que recusavam o culto aos deuses oficiais; outros também o faziam, ainda que por razões diversas. Roma, por mais inclusiva que pretendesse ser, não podia oficializar todos os deuses. No entanto, enquanto outros dissidentes religiosos sobreviviam e até prosperavam, Justino foi martirizado — e com ele, uma multidão incontável de cristãos. A desigualdade dessa perseguição, repetida ao longo dos séculos, mostra que o povo cristão foi, de fato, o povo sacrificial por excelência e o bode expiatório da ordem social antiga.

Há aqui uma nota específica, que ultrapassa o simples fato da perseguição. O sacrifício cristão, à luz do pensamento girardiano, distingue-se por ter a sua causa precisamente na recusa de sacrificar. Em primeiro lugar, na liturgia; mas também, e sobretudo, na vida. O templo pagão imitava a exclusão que se operava fora dele, reproduzindo ritualmente a violência fundadora da comunidade. O sacrifício aos deuses era, portanto, mais do que uma infração pontual ao primeiro mandamento cristão: era a recusa total da nova economia da graça inaugurada por Jesus. Diante desse mundo, o culto cristão aparecia como uma negação radical, pois, na sua páscoa, Cristo havia encerrado toda a lógica sacrificial antiga.

E isso poque, no cristianismo e a partir dele, todo sacrifício é vão. Quando Cristo fala que Deus não quer o sacrifício, mas sim a misericórdia, a ordem antiga rui. Liturgicamente, esse trecho evangélico poderia ser lido pelos primeiros cristãos como uma proibição de sacrifícios aos deuses pagãos. Mas, sem dúvida, a lição reverberava para além dos templos. Os cristãos pagavam seus tributos para o mesmo Estado que lhes tirava a vida, o que significa uma recusa intrínseca da violência, por mais justificada que fosse.  O cristianismo, pois, vai ao âmago desse mecanismo sacrificial e o desmonta. 

Ao fazê-lo, inverte o próprio sentido do sacrifício. A Missa, nesse contexto, contém uma lição teológica e antropológica de profundidade extraordinária. O gesto de incensar o povo, sinal de sua participação na oferta de Cristo, é o exato inverso do ritual pagão: enquanto este reencena a exclusão e a morte do outro, aquele transfigura o sacrifício de si em amor e liberdade. Na Missa, o sacrifício não é repetido, mas consumado, encontrando seu ponto final; não perpetua a violência, mas a dissolve no perdão. Nela, o povo é incensado não para ser destruído, mas para ser elevado — oferecido a Deus, sim, mas como corpo unido ao Ressuscitado.

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