Resistências à Inteligência dos Pobres
| Comedores de Batatas, de Van Gogh |
Na Exortação Apostólica Dilexi te, o Papa Leão XIV escreve que “em particular, é preciso reconhecer novamente que a realidade se vê melhor a partir das periferias, e que os pobres são sujeitos de uma inteligência específica, indispensável à Igreja e à humanidade.” A formulação é, ao mesmo tempo, uma intuição epistemológica e uma provocação teológica. Não se trata apenas de afirmar que os pobres também pensam, mas que há uma forma de inteligência que lhes é própria, nascida de uma posição existencial — a da periferia — sem a qual a Igreja e a humanidade se tornam cegas a aspectos decisivos da realidade. A partir dessa intuição, é inevitável perguntar por que essa inteligência, indispensável, é tão frequentemente silenciada.
A comunicação da inteligência dos pobres à Igreja e à humanidade, de fato, sempre encontrou bois na linha. O primeiro deles, nomeemo-los, é o medo. Não se trata aqui, porém, do medo banal de se encontrar com alguém discordante, mas racional, em seu juízo perfeito, e, portanto, digno de diálogo. Esse tipo de receio é universal, acompanha toda interlocução genuína e não explica, por si só, a resistência à escuta dos pobres. O medo de que se fala aqui é mais profundo e mais específico: não é o medo do outro, mas o medo de si mesmo diante do outro — o temor de que o encontro com o pobre desvele a estrutura de privilégios e exclusões sobre a qual o centro do mundo se ergue.
Esse é o medo de que o próprio mecanismo da pobreza seja desmascarado. À primeira vista, seria conveniente para todos que o pobre tivesse meios para negociar de igual para igual, para se expressar, enfim, para se integrar ao centro da economia e da vida, ao invés de permanecer na periferia. No entanto, esse acréscimo de bem comum não é sentido como tal porque todos no centro da existência pressentem, no fundo, que os próprios privilégios têm como fundamento a pobreza alheia.
“The center cannot hold!” — o verso de Yeats exprime o pavor que assalta o interlocutor quando o pobre começa a falar, e sua palavra, mais do que objeto de piedade, é transfigurada em revelação. Nas dobras da consciência do centro se esconde a verdade de que a coerência de seu mundo depende da exclusão sistemática do periférico. A voz do pobre ameaça essa coesão, não porque traga caos, mas porque revela que a ordem existente é, em parte, ordenação de uma violência oculta. O pobre, ao ser reconhecido como sujeito de uma inteligência, denuncia os mecanismos de criação das periferias sem os quais o próprio centro perderia identidade.
Esse medo engendra uma lógica oposta à do Evangelho. Na parábola da ovelha perdida, Cristo afirma o valor do excluído: a ovelha extraviada é mais preciosa que as noventa e nove restantes justamente porque o "bom comportamento" destas dependeu da exclusão daquela. A lógica do medo, ao contrário, é a do sumo sacerdote em João 11,50: “é melhor que um homem morra do que todo o povo se perturbe”. A espada que Cristo traz — e que não é de violência, mas de discernimento — recai precisamente sobre essa lógica sacrificial. Onde a religião farisaica do centro vê risco de desordem, o Evangelho vê possibilidade de conversão; onde as 99 ovelhas encontram a estabilidade social, o Cristo expõe a falsidade dessa paz que o mundo dá, fundada na exclusão.
Há, contudo, outro obstáculo à comunicação dessa inteligência: a apropriação, pelos próprios pobres, da lógica que os oprime. Trata-se dos pobres envergonhados, que internalizam a ideologia de uma falsa meritocracia e passam a se ver como indignos de falar ou existir em pé de igualdade. Nesse caso, a estrutura de exclusão se perpetua porque se imiscui na própria consciência da vítima: o pobre carrega dentro de si o olhar que o inferioriza. Contra essa inversão, o Papa recorda que a pobreza não é necessariamente fruto de falta de mérito, e que dignidade e graça não se medem pela posição social. O Evangelho é radicalmente incompatível com a ideia de que o valor da pessoa deriva de sua riqueza.
Daí a confusão gerada pela teologia da prosperidade, que reveste o erro com a mesma linguagem religiosa da doutrina sã. Nela, o princípio evangélico de que Deus confere sua graça aos humildes é distorcido numa moral de causa e efeito segundo a qual a pobreza material seria sinal de culpa ética. O raciocínio torto é mais ou menos assim: "Se Deus o ajuda, e ele permanece na situação de penúria, o responsável só pode ser ele..." Contra essa doutrina, a tradição católica insiste: a graça pode coexistir com qualquer condição econômica. O pobre não é, ipso facto, um fracassado moral, mas alguém que encarna, como um símbolo vivo, a condição humana diante de Deus — a condição de quem nada possui senão o dom.
Por fim, cabe sublinhar que a inteligência dos pobres, de que fala o Papa, não é apenas uma categoria sociológica, mas uma forma de revelação: ela ilumina os mecanismos pelos quais o mundo mantém suas hierarquias e aponta para uma lógica alternativa — a do Reino, onde o centro é deslocado para a margem, e o poder se converte em serviço. Escutar essa inteligência, portanto, precisa ser mais que um gesto de justiça social: precisa ser um ato de fé. Pois somente a partir do olhar dos que estão fora é possível ver o mundo como ele é — e assim começar a reconstruí-lo de modo que, enfim, o centro possa sustentar-se não pela exclusão, mas pela comunhão.