Tocar a Ferida Gay


A ciência nasce de um impulso parecido com o que moveu São Tomé a pedir para tocar as chagas de Cristo: o desejo de ver, de verificar, de transformar o conceito em carne. Quando Tomé declara que não acreditará sem tocar, manifesta uma fé, digamos, científica — não no sentido moderno de método, mas no de uma confiança que exige o contato direto com a realidade sensível. Essa postura pode ser vista como uma matriz evangélica da ciência:  a recusa em contentar-se com o mistério enquanto houver um caminho empírico a percorrer. A ciência, como Tomé, não nega de antemão o transcendente, mas o interroga com os dedos, procurando as marcas concretas por onde o espírito se fez carne. E, se essa fé científica tem algo de limitado — porque se detém no que pode ser tocado —, ela também é indispensável: é dela que brota o gesto inicial de toda investigação, o impulso de se aproximar do mundo para compreendê-lo.

Uma distinção se impõe, porém. Entre ciência básica e pesquisa clínica aplicada há uma diferença de objeto, propósito e método. Ciência básica busca descrever e explicar mecanismos fundamentais da natureza — suas perguntas são do tipo por quê e como: como se organiza um circuito neural; quais são os caminhos bioquímicos que regulam a diferenciação sexual do sistema nervoso; que variabilidade genética existe numa população e de que modo ela afeta fenótipos. A pesquisa clínica aplicada, por contraste, toma conhecimentos sobre esses mecanismos e os desloca para finalidades específicas de saúde ou prática: diagnosticar, tratar, prevenir, ou melhorar prognósticos em indivíduos ou populações humanas (ou veterinárias). Um estudo que mapeia a via molecular pela qual um hormônio sexual altera a expressão de certos genes no desenvolvimento fetal é ciência básica; um ensaio clínico que testa se um bloqueador hormonal reduz a progres­são de uma doença endócrina em pacientes é pesquisa clínica aplicada. Do mesmo modo, a caracterização anatômica e funcional de um núcleo hipotalâmico relacionado ao comportamento sexual em um modelo animal é ciência básica; já o desenvolvimento e a implementação de uma intervenção veterinária para aumentar a fertilidade de um rebanho seria pesquisa aplicada (com fortes componentes de transferência e regulação). 

Os estudos realizados na Oregon Health & Science University, liderados por C. E. Roselli e colaboradores, sobre a preferência sexual em carneiros enquadram-se claramente no domínio da ciência básica. Esses trabalhos identificaram e caracterizaram um agrupamento neuronal no hipotálamo ovino, cuja morfologia e expressão enzimática (por exemplo, aromatase) variam de modo consistente com a orientação sexual observada em carneiros adultos: carneiros com preferência por fêmeas apresentam, em média, um núcleo cerebral sexualmente dimórfico maior do que carneiros que preferem outros machos, e essa diferença é detectável antes do nascimento, o que aponta para um papel do ambiente hormonal pré-natal na organização neural. Assim, a linha de investigação de Oregon Health & Science University mapeia correlações anatômicas e mecanismos hormonais ou neuroquímicos que plausivelmente participam da gênese da preferência sexual em ovinos — investigação típica de ciência básica que busca ligar desenvolvimento, neuroanatomia e comportamento. 

A descoberta fundamental, no sentido estrito do programa de pesquisa, é que a variação de preferência sexual em carneiros parece decorrer de fatores biológicos — sobretudo processos de diferenciação neural mediados por exposições hormonais pré-natais, bem como variações em expressão enzimática (p.ex., aromatase) e, possivelmente, determinantes genéticos que afetam esses processos. Não se trata, pois, de uma construção social nem muito menos de uma identidade escolhida pelo indivíduo. Em termos sintetizados: neurologia (diferenças em núcleos e circuitos), endocrinologia (níveis e ação de hormônios durante janelas críticas do desenvolvimento) e genética ou epigenética emergem como explicações causais plausíveis e empiricamente sustentadas para a existência de carneiros com preferência por parceiros do mesmo sexo. 

É crucial, porém, não precipitar sobre a descrição científica o conceito normativo de doença. A ciência básica, ao menos enquanto disciplina descritiva e explanatória, não incorpora juízos de dever-ser negativo sobre o que é uma enfermidade — ela caracteriza mecanismos, taxas de ocorrência e consequências funcionais. O enquadramento de um fenótipo como doentio é um ato complexo de transferência: envolve medicina ou veterinária, ética, economia e decisões sociais. Em veterinária, por exemplo, um comportamento que reduza a fertilidade de um rebanho pode ser tratado como um problema de manejo ou de saúde do rebanho e justificar intervenções; em medicina, a patologização de uma característica comportamental ou identitária depende de critérios bioéticos e sociais ainda mais difíceis, que extrapolam a descrição mecanicista. Dito de outro modo: nem toda explicação causal autoriza, por si só, uma intervenção terapêutica ou corretiva. Entre descrição e valoração e intervenção há um espaço que deve ser palmilhado com prudência pelas ciências aplicadas e pelas políticas públicas.

De qualquer maneira, ao tratar das implicações sociais midiáticas, é necessário apontar que as apreensões expressas por parte da comunidade LGBTQ+ em relação a estudos que reforcem bases biológicas da orientação sexual têm fundamento restrito ao universo conceitual da identidade ou ideologia de gênero. No entanto, se houver disposição para abandonar esse domínio teórico, os estudos também suscitam esperanças. Se a orientação sexual for lida como um traço biológico, abrir-se-ia não só a possibilidade de cura e prevenção mediante o uso de descobertas biomédicas para justificar intervenções baseadas em normalidade reprodutiva, mas também a oportunidade, mais cara à comunidade arco-íris, de reforço de direitos humanos dos gays, ganhando impulso o  argumento contra criminalização: “não é escolha”.

Sobretudo, no âmbito católico, parece-me que se as descobertas da Oregon Health & Science University ajudarem a caracterizar o fenômeno gay também humano como uma biologia e não como uma escolha, elas acabarão por sublinhar o argumento de James Alison acerca do caráter peculiar da homossexualidade. Segundo o teólogo, aplicar as mesmas regras de castidade para gays e héteros seria como unificar a disciplina do rugby e do futebol. "Aplicar as regras do futebol aos jogadores de rugby, como se os jogadores de rugby fossem jogadores de futebol defeituosos que estão sempre desobedecendo a regra cardeal do futebol de que apenas o goleiro pode tocar a bola com a mão, não faz sentido. Da mesma forma, impor regras de castidade destinadas a pessoas heterossexuais a pessoas gays é incoerente e injusto."  A analogia de Alison, que se baseia na diferença constitutiva entre héteros e homossexuais, ganharia um lastro biológico nada desprezível. 

Mais Populares