A Melancolia do Homo Laborans


Alexander Payne, em Confissões de Schmidt, parece querer insinuar na alma da assistência, sob a superfície das cenas engraçadinhas, a pergunta dilacerante do Eclesiastes: “Quid lucri est homini de universo labore suo, quo laborat sub sole?” — “Que proveito tira o homem de todo o trabalho com que se afadiga debaixo do sol?” A inquietação que atravessa o livro sapiencial ecoa no percurso do atuarista Warren Schmidt, cuja vida — nascer, educar-se, trabalhar, morrer — se movimenta com a mesma fatal repetição que marca as sociedades industrializadas. A narrativa se passa nos Estados Unidos, mas a coreografia existencial não é estranha ao espectador brasileiro, igualmente imerso na circularidade de uma vida produtiva cuja lógica raramente é questionada.

À primeira vista, porém, não é evidente se Payne almeja atingir o coração do homo laborans com uma crítica social contundente ou se prefere festejar sua própria sagacidade filmando um desfile de personagens intelectualmente anêmicos. A suspeita é reforçada pelo fato de que muitos deles — de Schmidt, frequentemente catatônico e emocionalmente ausente, ao abobado Randall, noivo de sua filha, e até figuras periféricas como Duncan, irmão de Randall — oscilam entre a apatia e uma oligofrenia que a direção explora em chave cômico-depressiva.

A atmosfera que envolve esses personagens é tão cafona quanto desinteressante, combinando com a idiotice geral. Payne a introduz delicadamente por meio de detalhes cenográficos, como os bibelôs da esposa de Schmidt, mas ela atinge seu ápice asfixiante na cena do primeiro jantar em Denver: uma mesa pesada, um silêncio sem alma, uma sociabilidade desfibrilada só interrompida pelas altercações pueris dos pais divorciados de Randall. A cena demarca o vazio espiritual que o filme pretende expor: o convívio humano, mesmo no seio da família, já não consegue produzir sentido.

A inteligência — ou ao menos a sinceridade, seu começo — surge apenas nas cartas que Schmidt escreve ao menino africano que ele apadrinhou à distância. Nelas, o protagonista desvela desgostos, ternuras e fragilidades que não consegue comunicar a ninguém mais. Essas cartas estabelecem uma ponte simbólica “sobre o oceano”, mas sua potência catártica é quase anulada pelo contraste demasiado marcado entre a transparência desses monólogos e a opacidade quase absoluta das relações entre personagens que compartilham a mesma geografia. O filme sugere, assim, que a comunicação honesta só é possível onde não há risco de verdadeira reciprocidade.

A epistolografia, contudo, não é monopolizada por Schmidt. Outras cartas surgem como contraponto — entre elas, a da esposa ao amante Ray, melhor amigo do marido. Schmidt, porém, vítima aí, não deixa de vitimar acolá: ele também tenta cometer adultério, interpretando como interesse erótico o comentário gentil de uma desconhecida sobre sua interioridade. A cena no motorhome, uma das mais aflitivas do filme, evidencia que a sexualização imediata do gesto alheio — uma perversão típica de sociedades que perderam a linguagem da ternura — é fruto da mesma incapacidade de comunicação genuína que estrutura toda a narrativa.

A falta de sintonia entre os personagens americanos atinge seu momento paradigmático no discurso de Schmidt no casamento da filha. Depois de resistir à ideia de falar, ele hesita entre dizer a verdade — rompendo o protocolo — ou manter as aparências para preservar a estética vazia de um clima agradável. Sua escolha pelo segundo caminho confirma que, naquele universo, a substância cede sempre à forma, e Schmidt permanece com o menino africano como único interlocutor verdadeiro.

É nesse vão entre o que Schmidt pensa e o que ele diz que o filme localiza sua crítica social, embora o protagonista jamais a compreenda por inteiro. Uma sociedade centrada na produção de bens e, no caso específico, na segurança financeira não satisfaz as ânsias espirituais do atuarista — nem de ninguém. Nesse sentido, Payne denuncia, ainda, a insuficiência de uma religiosidade superficial que mistura interpretações de sonhos, superstições cósmicas e conversas com os mortos, sem jamais elevar-se ao estatuto de guia ético ou metafísico da existência.

O apelo do transcendente, porém, não é descartado. Ao contrário: são as missionárias que cuidam do menino apadrinhado que encarnam, para Schmidt, a grandeza que outrora imaginara nos pioneiros norte-americanos — figuras de uma aventura existencial que torna risível a vida ordinária de donas de casa, atuaristas, vendedores e gerentes. É, enfim, também da África que vem a única voz capaz de comover até as entranhas de Schmidt. A cena final, em que ele recebe o desenho enviado pelo afilhado, condensa com uma intensidade patética o agridoce da existência: a pequenez de nossas vidas sob o sol e, simultaneamente, a possibilidade de uma graça mínima — porém decisiva — que impede o niilismo total.

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