A Parresia na Monarquia Brasileira
A resposta de Rui Barbosa à última Fala do Trono, resposta pronunciada em 4 de abril de 1889, constitui um exercício magistral de equilíbrio retórico, que combina deferência ostensiva à figura do monarca com crítica impiedosa ao Gabinete responsável pela redação do discurso régio. Esse duplo movimento — respeito institucional aliado a ironias acerbas — confere à peça oratória seu tom característico e, ao mesmo tempo, revela a consciência aguda de Rui acerca dos limites constitucionais que enquadravam e orientavam a atuação do parlamentar sob a monarquia.
Logo na abertura de sua resposta, Rui sublinha a distinção fundamental entre a pessoa do Imperador — símbolo vivo da unidade nacional, mas constitucionalmente afastado da responsabilidade política — e o Ministério que governava em seu nome. A estratégia é visível na famosa passagem em que descreve o efeito entorpecente do discurso lido por Dom Pedro II:
“A Câmara sentiu como que desaparecer de seus olhos o soberano presente, transfigurado, por uma alucinação nos narcóticos que nos propináveis, no vulto claustral do ministro do Império, em que se envolve, beatamente, a incredulidade na estamenha do franciscano.”
A frase é um prodígio de cálculo político. Ao declarar que o soberano “desaparece” diante do Parlamento, Rui licencia-se preventivamente contra qualquer imputação de lesa-majestade: suas invectivas — duras e sofisticadas ao mesmo tempo — não se dirigiriam ao Imperador, mas ao Gabinete, o agente constitucionalmente responsável pelos atos do governo. O "desaparecimento" do monarca funcionava, portanto, como anteparo e como licença. O mais interessante, porém, é que, no mesmo gesto em que imuniza e afasta o Imperador do campo de ataque, Rui condensa numa única imagem uma crítica total ao Ministério: o “vulto claustral” do ministro do Império, figura recolhida, opaca e distante do país real, cuja incredulidade ou insinceridade se oculta na “estamenha do franciscano”. A metáfora não apenas acusa o ministro de mascarar a realidade nua sob um manto pseudo-religioso, mas também sugere o caráter quase monástico e, pois, antipopular de sua atuação política. Em poucas linhas, Rui arma a arquitetura conceitual que desenvolverá ao longo do discurso.
Coloca-se, então, uma questão de teoria política de maior alcance: a preservação do monarca como adereço intangível do regime abria espaço para uma parresia ampliada contra os entes dessacralizados da engrenagem governamental? Em outros termos: num regime em que a sacralidade se concentra na figura do rei e de sua família, torna-se mais fácil e mais seguro criticar duramente os ministros, justamente porque não participam desse halo sagrado?
A resposta parece ser afirmativa. O próprio Rui oferece outros exemplos de sua liberdade retórica quando dirige seus ataques ao Ministério. Na célebre passagem de outro discurso, em que desqualifica o ministro da Guerra, chega a ponto de descrevê-lo, em termo crus, como “individualidade flácida, político invertebrado, espécie de medusa marinha, de fibras morais inconsistentes e diáfanas, que flutua à tona de todas as correntes, e vai dar nas praias, aonde o leva a ressaca." A violência verbal, que em qualquer outro sistema poderia parecer um atentado às instituições, permanece aqui perfeitamente enquadrada: o alvo é o ministro, não o Estado; o gabinete, não a Coroa; o responsável político, não a entidade sacralizada que encarna a continuidade da nação.
Paradoxalmente, portanto, a concentração da sacralidade no monarca funcionava como mecanismo de proteção e, em certo sentido, de ampliação da crítica parlamentar. Impedida de ascender ao topo da pirâmide política — zona interditada pela liturgia monárquica — a crítica ganhava intensidade ao concentrar-se no nível imediatamente inferior: os ministros, expostos constitucionalmente à responsabilização. A inviolabilidade simbólica do Imperador criava uma válvula de escape que tornava possível, e mesmo legítimo, o exercício máximo da parresia contra o Gabinete.
Cumpre observar que essa dinâmica contrasta fortemente com o ambiente institucional da República contemporânea, caracterizado pela judicialização constante dos conflitos, que mina a imunidade parlamentar. Nesse novo quadro, a crítica parlamentar ou jornalística tende a perder nitidez: não há um centro simbólico intangível que delimite com clareza os alvos legítimos da invectiva, nem um corpo ministerial cuja responsabilidade seja tão posta à prova quanto na monarquia constitucional oitocentista. A parresia tornou-se mais arriscada.
Talvez hoje a estrutura política judicializada não comportaria alguém como Rui Barbosa, que, com essa resposta a última Fala do Trono, mostra ter compreendido que a sacralidade do monarca, longe de sufocar o espaço de crítica, o estruturava e direcionava. Sob essa égide, podia chamar ministros de “medusas marinhas” e “políticos invertebrados” sem, contra seu interesse pessoal, ser responsabilizado civil ou criminalmente, e sem, no âmbito político, minar a dignidade do Estado ou comprometer uma governabilidade que, no máximo, teria que ser renovada com outro Gabinete. A monarquia brasileira oferecia, assim, um horizonte de estabilidade simbólica que lhe permitia exercer, com brilho e com audácia, a liberdade de dizer tudo.