Entre a Cruz e o Espelho


Ensina o Cardeal Víctor Manuel Fernández, na nota Mater Populi Fidelis, que "os cristãos, unidos a Cristo ressuscitado que voltou para o seio do Pai, podem realizar obras que superam os prodígios do Jesus terreno, porém sempre graças à sua união pela fé com Cristo glorioso". Essa união com o Cristo glorioso, o Cristo que foi para o Pai, é uma identificação amorosa com a vítima que, tendo garantida a sua vitória sobre a morte, foi agraciada com a liberdade de, sem medo, denunciar o mecanismo sacrificial desse mundo. 

Nesse sentido, as obras maiores que a de Jesus terreno, prometidas aos que crerem nEle, mais do que em milagres, residem na maior eficácia da denúncia da exclusão e da exortação ao seu contrário, o que podemos ver hoje com nossos próprios olhos e na nossa própria biografia. Ao assegurar uma vitória cada vez maior sobre a morte, Cristo sela e confirma seu Evangelho, e a revelação da violência, deixando de ser a mera substituição de um bode expiatório por outro, passa a reconfigurar a essência do mundo. Essa reconfiguração, porém, não é unidirecional. Ao mesmo tempo em que possibilita uma sinceridade cada vez maior no amor ao próximo, ela exige, para se contrapor à sua nova lógica, um cinismo cada vez mais descarado. Surgem santidades e vilanias, joio e trigo que crescem mesmo dentro da Igreja, sem que, antes do fim, sejam separados... 

O que gostaria de frisar, porém, é que essa segurança desde a qual o mecanismo sacrificial deve ser denunciado é tão importante que São Paulo não hesita em insistir - na linguagem radical de Romanos, 8, 35 - que nada pode nos separar do amor de Deus. Sem nos sabermos e sentirmos salvos por uma decisão irrevogável do Senhor, de fato, o que nasceu como uma revelação superior ao mundo se veria imerso na própria dinâmica deste e seria só uma versão mais elegante da mesma violência: ideologizada, moralizada ou organizacional. É esse o sentido da grande ironia paulina chamada de sabedoria da carne, que não é capaz de se submeter à lei do amor.

Não é compreensível, portanto, nem o medo nem a raiva cristãs. Trata-se de uma contradictio in terminis. Não augura bem, pois, diante de notícias, verdadeiras ou falsas, de reordenação, levada a cabo por Roma, de uma entidade da Igreja, a reação violenta contra a publicação. Ainda que essa entidade seja o Opus Dei, e ainda que a instituição de São Josemaria seja uma daquelas obras maiores que as de Jesus terreno em extensão, não há por que receber mal o mensageiro da sua ruína. Se ele mente e tudo ficará como sempre foi, maravilha. Se houver alguma mudança de fato para pior, ela não justifica qualquer reação adversa contra ninguém, muito menos contra a sede da cristandade. Mais do que política, a manifestação de amor incondicional à Roma, venha de lá o que o vier, é sinal de um cristianismo seguro.

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