A Língua Absolvida
O mundo, esse vasto auditório de certezas provisórias, só tem um Papa: aquele a quem, por mistério e instituição, foi dada a autoridade de julgar as coisas divinas. Todavia, como em qualquer feira de vaidades, proliferam pontífices autoproclamados, papas de turno, investidos de uma autoridade que ninguém lhes conferiu, mas que eles brandem com o desembaraço dos que jamais suspeitaram da própria ignorância. Julgam, condenam, excomungam — e, de quebra, submetem ao próprio tribunal a Sé de Pedro, como se lhes coubesse a última palavra em matéria de céu.
Há fenômeno paralelo, digno de nota e, por ser menos grave, de riso: o dos juízes do vernáculo, instalados em tribunais linguísticos de exceção, espécie de ditaduras provisórias onde a gramática é manejada como instrumento de suplício, e cujos tijolos não foram, como é de esperar, cozidos no forno dos grandes da língua, mas moldados ao correr das redes sociais e das vaidades didáticas.
É nesse cenário mais cômico que trágico que surge uma Cíntia Chagas, munida de uma lógica feroz, a proferir sentença contra o emprego de “antes de mais nada”. Fui informado por terceiros que a papisa do idioma, investida de seu solidéu filológico, determina que se diga “antes de tudo”, pois não seria lógico — e é sempre a lógica dos conceitos que escapa aos lógicos do juízo — chamar de nada aquilo tudo que se seguirá no discurso. Assim, a língua de Machado, Camilo e Rui Barbosa é ré, outra vez, perante um juízo que provém mais da amargura do que da benevolência. Convém, por isso, recordar que, acima e além das autoridades literárias silenciosamente ofendidas pela douta usurpadora, há a própria lógica interna da língua, diversa daquela lógica fechada, literalista e sem música, que absolve com facilidade o condenado.
Se Cíntia tivesse razão em sua matemática de partículas negativas, não poderíamos dizer que Fulano de Tal “não faz nada da vida”. Duas negações — “não” e “nada” — fariam de Fulano um ser hiperprodutivo, um Hércules de ocupações. Mas a língua, que nunca pediu licença à álgebra para existir, não dirige esse "nada" diretamente ao ouvido semântico, senão que o usa como marcador discursivo: ele reforça, no interior mesmo da frase, o sentido do “não” precedente, tornando-o mais firme e mais categórico.
Com o “antes de mais nada” dá-se algo análogo. Não se trata ali de reforço por repetição, mas também de expressão idiomática consolidada, que é um marco de entrada para o palavreado seguinte (quase um dobrar de sineta), assinalando ao ouvinte que o discurso começa por seu ponto mais substancial. É um gesto que, como um dedo em riste ou um levantar a voz, termina nos domínios da retórica, não chegando a ser uma referência ao mundo fora do discurso; e um uso cristalizado pelo tempo, não uma equação submetida à inspeção de algum bedel da lógica.
E é justamente aqui que reside o ponto: a língua, essa criatura viva, ferida e luminosa, obedece menos aos que pretendem vigiá-la do que aos usos. Onde os fiscais enxergam desvios, ela cria caminhos; onde apontam contradições, ela improvisa música. E se, entre “tudo” e “nada”, o falante que a ama escolhe começar pelo nada, a língua, sábia e certa de si, corresponde e concede perfeitamente que é dali que começa quase tudo.