Memória, Cinismo e Arte


Esse blogue teve acesso, gravou e transcreveu um diálogo curto, mas muito interessante, entre Lemaître e Arantes, ambos professores universitários brasileiros que, passando o feriado da Consciência Negra em Ouro Preto, encontraram-se e trocaram impressões sobre memória e cinismo. Seguem:

Professor Lemaître: A indústria dos cursinhos para concursos, meu caro, é uma espécie de modernidade caricatural: adora dizer que trabalha com “neurociência aplicada”, mas teme como o diabo teme água benta qualquer menção às artes antigas da memória. Preferem vender PDFs coloridos com o mesmo fervor com que vendem canetas Stabilo — sempre muito úteis, claro, desde que você não descubra que os medievais decoravam tratados inteiros com nada além de imaginação disciplinada. Então repetem “revisão, revisão, revisão”, como um rosário dessacralizado, e chamam de “topificação” aquilo que eu chamaria simplesmente de lista. Mas escondem as imagens sensíveis, as cenas que grudam na alma, e sobretudo o afeto, esse motor silencioso do lembrar. Se o aluno descobrisse que memória se cultiva com ternura e fantasia, e não com apostilas ou videoaulas a R$ 1.000,00, quem pagaria a conta do estúdio da plataforma?

Professor Arantes: Ah, e a propósito dessas técnicas mnemônicas, os atletas da memória são um fenômeno curioso. Tome Joshua Foer — brilhante, divertido, competente. Mas ele mesmo admite que boa parte de seus palácios mentais seria interditada à presença da própria mãe. A imagética chocante e sexual deles é de um pragmatismo visceral. Nada contra; só constato. O afeto que move essas imagens nasce mais do cinismo da baixa fisiologia que da alta região do peito. E me pergunto: será que todos os grandes memorizadores estão condenados a esse realismo erógeno?

Lemaître: Cínico é um termo escorregadio. De qualquer maneira, eu diria que o expediente é objetivamente cínico, mas subjetivamente perdoável. Evolutivamente, somos máquinas de lembrar tudo o que ameaça e tudo o que procria; seria estranho que isso não fosse instrumentalizado. Não creio que Foer seja subjetivamente cínico — apenas aproveita o que a espécie lhe deu. Mas o método, de fato, tomado em si, flerta com esse cinismo americano que não pede desculpas por ser eficiente.

Arantes: É. E o problema é que “cínico” na história oscila entre a nobre insolência e a vulgaridade performática. Pense em Demétrio, amigo de Sêneca — sua frugalidade e sua linguagem sem enfeite eram quase um sacramento da verdade. E depois veja Peregrino, que decidiu morrer queimado à vista de todos: o homem transformou a própria morte em espetáculo, como se fosse uma aula inaugural sobre a vaidade humana. Ambos foram chamados corretamente de cínicos, embora imersos em circunstâncias um tanto distintas. Há em ambos um elemento de parresia, esse falar-verdade que se faz corpo, gesto, vida. Como Foucault diria, o cinismo é o escândalo da verdade — para o bem e/ou para o constrangimento geral.

Lemaître: Exato. O cinismo tem um gosto por levar a verdade até sua forma mais prática — e mais desconfortável. O conteúdo doutrinário é muitas vezes ralo, mas a ousadia performática e insolência são inesquecíveis. Duchamp, artista dos artistas, cínico dos cínicos, que o diga: aquele mictório, além de indecoroso, é, justamente por isso,  memorável a ponto de se tornar uma peça obrigatória em qualquer curso de estética. Por quê? Porque expõe, sem véus, a realidade fisiológica que a arte tradicional preferia ignorar. O artista vira um pequeno Diógenes num banheiro público. E, nesse sentido, os memorizadores eróticos fazem algo semelhante: contestam o pudor da memória, alegando que lembrar bem exige sujar as mãos nos subterrâneos da imaginação. Pode ser que estejam certos — mas só na prática; teoricamente, ainda prefiro os palácios que abrigam, sem rubor, tanto a verdade quanto o coração.

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