O Lugar de Girard
A tentativa de situar René Girard no interior da tradição tomista exige resistir tanto à tentação de reduzi-lo a um capítulo tardio do aristotelismo cristão quanto à de submeter São Tomás a um esquema hermenêutico exterior à sua arquitetura intelectual. O que está em jogo, com efeito, não é o enquadramento de Girard dentro das categorias tomistas, mas a busca de um lugar cristão capaz de hospedar, com segurança e fecundidade, a sua teoria mimética — essa teoria anticíclica, pouco sistemática, construída com escassos conceitos de extraordinária amplitude e sustentada, como fonte evangélica explícita, na inocência da vítima. Se São Tomás, ao tratar da prudência, do governo de si e do governo dos outros, nos oferece um tesouro ordenado de coisas novas e velhas, Girard, por sua vez, oferece uma teoria pontual, mas explosiva, que exige uma moldura mais larga para não degenerar em usos delirantes, como seria o caso do desencarceramento generalizado motivado por medo de que um inocente esteja entre os punidos. A prudência de São Tomás protege Girard contra Girard, por assim dizer.
Encontrar esse lugar passar por perceber que a “igualdade” em Girard é, na maior parte do tempo, uma igualdade factual e negativa: a igualdade dos rivais miméticos que, competindo, anulam mutuamente suas diferenças. Ela não é uma igualdade normativa; ela descreve o que acontece quando a mimese degenera, e os indivíduos se aproximam do indiferenciado violento. Todavia, uma igualdade normativa — filha da Revolução Francesa — também opera silenciosamente como premissa em sua obra, traduzindo-se na exigência não só de que não haja privilégios - que alimentem comparações suscetíveis de agravar desnecessariamente o risco da rivalidade mimética - nem, principalmente, exclusões. Essa igualdade normativa pode ser nomeada, com vantagem, como princípio da inclusão: só uma ordem que inclui efetivamente pode permitir a reintrodução prudente de diferenças legítimas, sem que estas reacendam ou sejam o resultado de uma disputa sacrificial.
Nesse ponto, a gnome, parte da prudência segundo São Tomás, oferece a moldura adequada para compreender o gesto girardiano. A gnome é aquela capacidade prudencial que, em face de um caso que escapa à regra comum, o subtrai da aplicação literal da norma e o reinsere na ordem, apelando a um princípio superior ao ofendido. Ela salva a exceção, não a suprime; reconcilia o singular com o universal, sem sacrificar nenhum dos dois. A função da gnome no conjunto da prudência é, portanto, operar exceções justificadas por razões mais altas — aqui, por um princípio de inclusão e de caridade que impede que uma diferença necessária se transforme em mecanismo de expulsão. É nesse sentido que medidas punitivas podem ser compreendidas não como exclusões, mas como remédios: punir não para apartar, mas para reintegrar.
O princípio da inclusão, ainda que não formulado por São Tomás nesses termos, encontra eco profundo em sua doutrina do bem comum. Na Summa, IIª-IIae q. 47 a. 10 ad 2, o Aquinate fundamenta a orientação prudencial para o bem da multidão na própria estrutura da pessoa como parte do todo: bona dispositio partis accipitur secundum habitudinem ad totum; e, com Agostinho, declara torpe a parte que não se conforma ao seu todo. A inclusão, entendida girardianamente, pode ser descrita como intensificação desse habitus ad totum: ser possuído para e pelo todo, integrar-se, tornar-se congruente. O pensamento girardiano, lido pela ótica da prudência, deixa de ser só uma denúncia negativa da violência sacrificial para se converter num recurso hermenêutico fomentador da congruência entre a parte e o todo sem sacrificialidade.
Mas Girard é, confessadamente, um pensador negativo. Sua teoria nasce do diagnóstico dos mecanismos de crise, das derivas miméticas, dos colapsos diferenciais. Aqui é decisivo o discernimento tomista entre providência e cautela. Na prudência, a providência busca evitar males intrínsecos à finalidade da ação; a cautela, por sua vez, evita males extrínsecos, interferências que podem desviar o curso de um bem possível. O exemplo cotidiano ajuda: trabalhar é um ato previdente, pois evita o mal intrínseco de faltar o necessário; cuidar da saúde, ao contrário, é um ato cauteloso, pois evita que um mal extrínseco — a enfermidade — comprometa a capacidade de trabalhar. A enfermidade não faz parte da estrutura interna do projeto de subsistência; ela o ameaça de fora.
Sob essa luz, a teoria mimética é muito menos uma providência do que uma cautela. Girard não procura refazer o desejo humano nem torná-lo autônomo. Pelo contrário: insiste que o desejo é tanto mais real quanto mais modelado pelo outro. Não há, para ele, projeto liberal de emancipação da mimese; há uma aceitação radical da estrutura relacional do desejo. No entanto, ele identifica no mesmo terreno — o terreno relacional — o perigo extrínseco que ameaça o bom uso da imitação: o mecanismo do bode expiatório, que não nasce necessariamente da mimese, mas pode enraizar-se nela quando se degenera em rivalidade.
Nesse sentido preciso, Girard é um acautelador: ele não previne contra algo intrínseco ao desejo ou à imitação, mas alerta para o risco extrínseco que pode deformá-los e reconduzi-los à violência sacrificial. Ele não propõe abolir a mimese, mas discernir seus momentos de risco. E é exatamente aqui que a prudência tomista, especialmente em sua dimensão de gnome, oferece a moldura para que essa cautela não se transforme em negação da ordem, mas em sua depuração.
Assim, ao se encontrar um espaço para Girard dentro do sistema de São Tomás, não se o domestica; antes, amplia-se a prudência tomista com uma sensibilidade moderna para o risco do sacrifício. E, ao se colocar Girard sob a guarda da prudência, impede-se que a crítica da violência se converta, paradoxalmente, em nova forma de desordem. Girard floresce, portanto, não contra São Tomás, mas sob São Tomás — precisamente onde a prudência é mais alta, mais aberta às exceções e mais apta a manter, sem sacrificar ninguém, a congruência da parte com o todo.