Reverência e Desejo


O apelido é uma forma de intimidade. Ele reduz distâncias, aproxima e cria círculos de familiaridade. Justamente por isso, porém, ele pode dissolver a diferença necessária à reverência. Quando os meninos de Betel chamam Eliseu de "careca" (II Rs 2,23), não se trata de uma simples zombaria de infância — mas de um ato teológico. É o primeiro gesto de uma antropologia do escárnio: o esforço por igualar o diferente, por trazer o portador do sagrado ao nível do comum. A alcunha torna-se instrumento de nivelamento simbólico. Chamando o profeta de "careca", eles o arrancam de sua posição de mediação externa — aquela que o vincula à transcendência de Elias — e o instalam no círculo doméstico das rivalidades humanas. “Sobe, careca, sobe!”, dizem, não porque desejam ser convencidos por um novo milagre, mas porque não suportam o que o milagre representaria: a confirmação de uma distância hierárquica entre o homem e o portador de Deus.

René Girard, sempre atento às engrenagens do desejo, talvez visse nesse episódio um exemplo clássico de tentativa da passagem da mediação externa à interna. Enquanto Eliseu permanecia distante, os meninos podiam admirá-lo sem perigo. Mas, aproximado pela zombaria, o profeta converte-se num semelhante, e o semelhante é sempre o rival em potência. A zombaria é um rito de incorporação ao círculo mimético — uma tentativa de capturar o transcendente e fazê-lo jogar segundo as regras humanas do prestígio e da competição.

O desfecho é conhecido, embora raramente contado nos catecismos infantis: dois ursos saem do bosque e despedaçam quarenta e dois meninos. Seria um tanto desconfortável, depois de Cristo, chamá-lo de “episódio edificante”. Todavia, do ponto de vista girardiano, a violência aqui aponta e insinua uma não-violência. Não se trata de sadismo divino, mas da reação ainda inevitável, pedagógica, ao sagrado profanado. A irreverência, ao dissolver a distância simbólica entre o homem e o mediador, desorganizaria o campo do desejo e precipitaria o retorno do real violento. É como se Deus, zeloso da diferença entre o humano e o divino, enviasse os ursos para restaurar a assimetria perdida — para lembrar, diríamos nós, que Eliseu não é da laia dos meninos.

No Novo Testamento, a cena reaparece sob nova luz. Jesus, também Ele o herdeiro de uma autoridade espiritual, é igualmente provocado. “Se és o Filho de Deus, desce da cruz”; “Salvou os outros, a si mesmo não pode salvar-se.” A semelhança é flagrante: os escarnecedores, como os meninos de Betel, exigem a prova sensível da mediação, forçando o transcendente a jogar no campo da rivalidade. “Desce!”, “Sobe!”, “Mostra o teu poder!” — o verbo muda, mas o movimento é o mesmo: trazer o sagrado ao chão comum da comparação.

A diferença, contudo, é ainda mais decisiva. Eliseu, tomado pela fúria profética, convoca ursos. Cristo, ao contrário, convoca o perdão. Enquanto o primeiro mantém sua mediação externa pela força — os ursos como guardiões do intervalo entre Deus e o homem —, o segundo mantém-na pela entrega. Jesus não desce ao nível dos provocadores não porque tema a rivalidade, mas porque resolve a tensão pela misericórdia. Ao perdoar, Ele retira do mecanismo mimético o combustível da vingança. Os ursos são substituídos por uma revelação de clareza meridiana: o reconhecimento, no coração dos escarnecedores, de que o outro não é rival, mas vítima sem culpa. 

Aqueles que zombam de Cristo acabam, se não devorados por feras, devorados por uma consciência cada vez mais transparente de sua própria violência. A clareza que se abate sobre eles é a nova fera do Novo Testamento — uma fera espiritual, que não mata corpos, mas desvela desejos de morte. Eliseu, habitando ainda uma zona cinzenta entre a rivalidade e a transcendência, vinga-se para afirmar a diferença. Cristo, libertando-se do ciclo sacrificial, morre e ressuscita para que a diferença se revele sem necessidade de sangue alheio. A Ressurreição é a prova final de que Ele jamais esteve submetido à dinâmica mortal da rivalidade: aquele que não responde à provocação sempre esteve fora do círculo do desejo demasiadamente humano.

Assim, entre Betel e o Gólgota, intensifica-se a revolução antropológica do povo escolhido. O “careca” e o “Rei dos Judeus” crucificado são ambos escarnecidos, mas apenas o segundo transforma o escárnio numa revelação radical de sua alteridade. Os meninos foram devorados por ursos; os homens, pela consciência. E é por isso que, mesmo com dois milênios de convivência com Cristo, ainda é necessário um discurso reverente para se falar de Jesus. Porque, como descobriram os meninos de Betel, brincar com o transcendente é sempre uma brincadeira perigosa.


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