São Bernardo e os Escribas Eletrônicos
São Bernardo de Claraval, ao que tudo indica, não dispunha de escriba à altura do seu estilo. Sua prosa ardente e ritmada dificilmente toleraria intermediários criativos. É razoável supor que ditasse tim-tim por tim-tim, governando cada frase como um abade governa o coro: notas certas, entradas precisas, nenhum espaço para improvisações do copista. Havia ali não apenas ideias claras, mas um ouvido para a música da língua e uma consciência quase física do peso das palavras.
Nem todos os abades, porém, eram Bernardos. É plausível — e historicamente verossímil — que muitos superiores, soterrados em questões administrativas, espirituais e disciplinares, entregassem ao escriba bem mais do que a simples tarefa manual de passar o texto a limpo. Confiavam-lhe não só a pena, mas também a composição e o estilo: indicavam os pontos essenciais, a doutrina a ser transmitida, o propósito pastoral da mensagem — e deixavam à habilidade alheia o encadeamento das frases, o acabamento do período, a escolha do tom adequado. Retinham a direção intelectual, delegavam a execução literária. Não há nada de escandaloso nisso: era, afinal, uma divisão de trabalho adequada às desigualdades naturais de talento.
É exatamente aí que a escrita assistida por IA encontra sua analogia perfeita. A ferramenta opera como o escriba moderno do abade sem veia bernardina: recebe a matéria-prima — ideias, teses, argumentos — e entrega, em troca, uma redação menos manca, mais uniforme, mais funcional. A pergunta provocativa que se impõe é: Bernardo de Claraval se insurgiria contra esses colegas abades por recorrerem a escribas? Faria da presença ou ausência de um estilo literário inconfundível um critério para julgar seus colegas de profissão e irmãos de credo? Dificilmente. A grandeza de Bernardo estava menos no virtuosismo retórico em si do que na supremacia do conteúdo espiritual que nele se derramava. Ele sabia que o valor de um texto começa pelas ideias que sustenta — e só depois se mede pela forma que as reveste.
À luz disso, causa estranheza o espetáculo contemporâneo de pessoas que, privadas tanto do estilo quanto da caridade de Bernardo, arvoram-se em fiscais do bom uso da escrita alheia, condenando a IA com zelo gratuito e pouco discernimento. Falta-lhes aquilo que sobra ao santo: hierarquia de valores. Julgam como se a roupagem linguística fosse mais relevante que o corpo das ideias, como se uma frase redigida com auxílio técnico perdesse súbita e magicamente sua substância intelectual.
Reconheço, sem dificuldade, uma crítica legítima: no âmbito da educação, sobretudo de jovens estudantes, a escrita assistida pode representar uma forma de deseducação. O exercício de formular pensamentos com as próprias palavras — tateando frases, errando períodos, corrigindo vícios — é insubstituível na formação do espírito do aluno e pode, aqui e acolá, até dar origem a novos Bernardos. Ali se aprende a pensar escrevendo e se forma o juízo necessário para se criticar o escriba. A terceirização prematura desse trabalho empobrece a mente ainda em formação.
Mas o mundo não é feito apenas de alunos. Para o adulto profissional — advogado, juiz, empresário, funcionário e até professor experiente — a situação é outra. Quem já sabe o que quer dizer e domina o conteúdo do que diz pode, sem prejuízo algum, recorrer a um “escriba eletrônico” para padronizar o estilo, aparar arestas de expressão e ganhar tempo. Não se trata de renunciar ao pensamento, mas de otimizar a sua apresentação. É, no fim das contas, uma simples questão de produtividade — algo que, se tivesse um prazo a cumprir e um monte de cartas a redigir, um abade do século XII compreenderia melhor do que alguns gênios literários do Substack.