À Sombra do Aplauso

Zurbarán: Cristo na Cruz

Recordo sempre três cenas — humildes na aparência, grandiosas na substância — que me servem de modelo e de advertência. Vejo um professor realizar, perante uma sala ruidosa e distraída, mais dada a trivialidades do que a ideias, um verdadeiro prodígio intelectual: ali, onde as atenções se dispersam e os olhares vagueiam, ele constrói uma exposição inteira, genial e luminosa, como se tivesse diante de si as melhores inteligências do seu tempo. Vejo um escritor que, batendo em portas de editoras surdas, sem lograr publicação nem amparo, descobre em solidão um novo modo de narrar, uma fala própria, um estilo que ainda não existe — e escreve, não por esperar leitores, mas porque lhe seria impossível não escrever. Vejo, por fim, um chefe de cozinha que renova um prato antigo com engenho e precisão, servindo refinamento a paladares habituados à pressa oleosa dos sabores fáceis. Nenhum deles trabalha à cata de aplauso.

Eis exemplos da excelência exercida à revelia — quando não contra — o meio que a rodeia. Num mundo entregue à dispersão, escravizado pela ânsia de recompensa imediata, em que o mérito se mede por rumores de fama e acenos de aprovação, semelhante caminho exige uma motivação de outra cepa, íntima, severa, escondida. Não nasce da vaidade nem se alimenta da comparação; brota da consciência profunda do valor da tarefa em si mesma. É essa a energia das raras criaturas que, sem alarde, acabam por fazer real diferença na ordem das coisas.

Convém, todavia, distinguir tal disposição daquela imprudência que o Evangelho condena ao vedar que se lancem as pérolas aos porcos e se dê aos cães o que é santo. Não falo aqui da ânsia mal disfarçada de expor a própria elevação a espíritos refratários, como quem suplica reconhecimento onde só pode colher desprezo. Falo antes do oferecimento simples dos frutos de um labor maturado no tempo. A distinção é clara: a motivação intrínseca — feita raiz que se esconde na terra — não se ostenta nem se justifica perante quem não partilha do mesmo ideal; mas os frutos, esses, por sua natureza, hão de vir à luz do sol, à vista de todos, suficientes em sua eloquência muda.

Se alguém se encontra nesta posição — trabalhar sem rival, sem público e sem degraus de consagração — considere que nela reside uma garantia contra a corrupção da excelência em moeda de prestígio, contra a tentação de trocar a inteireza pelo artifício que seduz as multidões. Onde não há plateia, conserva-se a retidão; onde não se disputam aplausos, pode-se seguir, sem desvios, o caminho do bom e do ótimo.

Quem palmilha, ainda que descalço, essa estrada real saiba ainda que nunca esteve só. O exemplo supremo dessa projeção interior do sentido do trabalho fulgura em Cristo: carpinteiro de maravilhas numa aldeia esquecida, mestre entre ignorantes e rivais, Deus vivo entre incrédulos. Trabalhou fora da lógica de êxito humano, desdenhado pelos poderosos, mal compreendido pelos seus, sustentado apenas pela plena consciência de sua missão. Não há como prometer mais, mas isso já é tudo.  

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