Amenidades


Fui acusado — com a solenidade improvisada dos tribunais de corredor — de desprezar amenidades e small talk, de viver apenas entre grandes temas, deixando pelo caminho amigos humildes, como quem abandona guarda-chuvas perfeitamente funcionais por não combinarem com o casaco. A acusação, além de injusta, ignora fatos incontestáveis. Adoro músicas ruins, dessas que grudam no ouvido como chiclete antigo sob carteira escolar; sinto-me, sem qualquer justificativa racional, cativo de xícaras velhas, manchadas por cafés extintos; deleito-me com pão de mortadela em padarias de bairro, onde o balcão tem a dignidade cansada de um velho funcionário público. E desculpo com facilidade amigos “humildes” que, tomados por súbita vocação togada, se arvoram em juízes e levantam falsas acusações contra mim. Para provar que estão errados, segue um texto precisamente sobre amenidades.

Amenidades são esses assuntos leves, portáteis, quase descartáveis, de que qualquer pessoa pode participar sem ter sido iniciada em mistérios, bibliografias ou rituais preparatórios. São temas baratos e universais, moedas miúdas da conversação, que podemos gastar — e aqui a metáfora econômica não é gratuita — em certa quantidade e com certa profundidade com as mais diversas pessoas, sem risco de falência intelectual ou moral.

Digo “em certa quantidade” e “com certa profundidade” porque uma amenidade que se converte em obsessão profissional ou acadêmica deixa imediatamente de sê-lo, como um pardal capturado e catalogado deixa de ser pássaro e vira espécime. As amenidades se desnaturam quando ganham intensidade ou extensão excessivas. Uma coisa é comentar, com expressão vagamente interessada, que o dia está abafado; outra, bem diversa, é assistir a dois especialistas discutirem, com nomes gregos e gestos diagramáticos, as exatas variedades de cúmulos que conspiram sobre nossas cabeças. O clima, então, deixa de ser clima e passa a ser tese.

O sujeito capaz de falar amenidades ocupa uma posição curiosamente intermediária: não é o trop savant, incapaz de apreciar o trivial sem desmontá-lo, nem o sem-noção absoluto, ainda não introduzido nos arcanos da sociabilidade — arcanos estes que, convém notar, não constam em currículos escolares. Amenidades exigem um conhecimento mundano específico, uma espécie de tato aprendido por osmose, que permite dosar, como vimos, quantidade e profundidade. Aprende-se isso com a vida, não com apostilas.

Para falar amenidades, é absolutamente necessário não estudar — ou ao menos esquecer provisoriamente — tudo o que se estudou sobre o assunto. É preciso, portanto, ignorância. Uma ignorância ativa, escolhida, quase virtuosa. A ela deve se aliar uma dose de bom senso e, sem prejuízo disso, pequenas loucuras pontuais, bem medidas, que acrescentem graça à conversa, como um desleixo proposital de pronúncia ou uma opinião manifestamente exagerada, logo recolhida com um sorriso.

O centro vital das amenidades é o hall onde se esperam elevadores e os próprios elevadores, esses anticonfessionários verticais de curta duração. Podemos até cogitar que as amenidades são filhas desse espaço e desse tempo comprimido. Queremos ser simpáticos com os vizinhos, criar algum laço que, ainda que não se estreite como um abraço, funcione como um fio invisível de coesão social. Nada obstante, as amenidades também florescem em festas, paradas de ônibus, pausas para o cafezinho no trabalho — microclimas de sociabilidade onde o assunto importa menos que o gesto.

Amenidades existem porque o silêncio é constrangedor e o tempo, esse animal impaciente, precisa passar. Perguntar, porém, por que algo tão trivial existe é quase uma contradição lógica. As coisas simples — como as amenidades, como o gosto por xícaras velhas ou por músicas ruins — existem porque sim, com a naturalidade desarmante da geração espontânea. E isso, longe de ser um defeito, é justamente o seu encanto.

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