Governados pela Mimese (Dt 17,14–17)

Jesus montado sobre um jumento, não um cavalo


Já se sustentou neste blog a tese — incômoda tanto para certas utopias políticas — de que o fim da desigualdade material, mesmo sob condições de abundância generalizada, não erradicaria o desejo mimético. A rivalidade não nasce da carência absoluta, mas da comparação; não da fome de pão, mas de similitude. O versículo 14 de Deuteronômio 17 confere a essa intuição uma surpreendente autoridade bíblica: “Cum ingressus fueris terram… et dixeris: ‘Constituam super me regem, sicut habent omnes per circuitum nationes’.” Israel já está instalado, possui a terra, habita nela com estabilidade e, ainda assim, deseja por imitação. A prosperidade não dissolve o impulso comparativo; ao contrário, cria o cenário perfeito para que ele se manifeste de forma politicamente estruturada. O desejo por um rei não nasce da falta, mas da observação do outro.

O mais notável, porém, é que Deus não tenta extirpar esse desejo mimético desde a raiz. A meu ver, a razão divina é que isso desnaturaria uma forma de desejar inscrita pelo próprio Deus no homem. Não há aqui uma interdição absoluta do tipo “não sereis em nada como os outros povos”, mas uma negociação. O desejo é reconhecido, acolhido e disciplinado. “Eum constitues super te regem, quem Dominus Deus tuus elegerit…” A imitação não é anulada; é delimitada. Se seguida, essa delimitação configuraria algo muito próximo do que hoje chamaríamos, com certo anacronismo consciente, de uma monarquia constitucional. Nesse sentido, além de ser escolhido por Deus, um limite é decisivo: o rei deve ser “um de teus irmãos”. Em um mundo antigo no qual a realeza se definia justamente pela diferença metafísica, essa exigência é revolucionária. No Egito, o faraó é um deus; na Mesopotâmia, o rei é filho adotivo dos deuses, mediador entre o céu e a terra. Em Israel, o rei é apenas — e isso é tudo — um irmão entre irmãos. A transcendência não se imanentiza no poder; ela o julga desde cima.

É nesse contexto que o "tantummodo" do versículo 16 irrompe com uma graça sem precedentes! “Tantummodo non multiplicabit sibi equos…” O advérbio é extraordinário. Ele soa como um preâmbulo divino carregado de carinho: as exigências são poucas, mínimas, quase modestas, e visam ao próprio bem daqueles a quem são impostas. Deus parece pechinchar com seu povo: “Está bem, tereis um rei — apenas não deixem que ele se transforme nos tiranos que os reis normalmente se tornam”. O rei não deverá multiplicar cavalos, símbolo inequívoco do poderio militar ofensivo; não deverá acumular mulheres, para que seu coração não se desvie; não deverá juntar prata e ouro em excesso, para não oprimir economicamente seus irmãos por meio de tributos e exações. Cada proibição atinge um eixo clássico da dominação política: força militar, alianças dinásticas e concentração de riqueza. O texto não demoniza a realeza; apenas desativa seus mecanismos típicos de absolutização. O desejo imitativo de Israel precisa ser purificado pela observâncias dessas exigências divinas, que, segundo Deus, são pouquinhas - "tantummodo"!

A cláusula que proíbe reconduzir o povo ao Egito concentra, talvez, a maior densidade simbólica do trecho. Não se trata apenas de uma advertência geográfica ou diplomática. O Egito é, ao mesmo tempo, fornecedor estratégico e paradigma civilizacional. Para construir uma cavalaria de elite — sonho recorrente de qualquer monarquia antiga — Israel inevitavelmente teria de negociar com o maior produtor da região. O comércio de cavalos implicaria dependência econômica, intercâmbio cultural e, frequentemente, formas disfarçadas de servidão: envio de mão de obra, contratos leoninos, submissão política. Deus antevê a lógica do processo: quem compra cavalos importa mais do que animais; importa deuses, práticas administrativas, cosmologias políticas. O cavalo é a isca. A escravidão que retorna não é, inicialmente, física, mas espiritual e simbólica. Voltar ao Egito é reconfigurar o imaginário, aceitar novamente um mundo no qual o poder se diviniza e o povo se instrumentaliza.

Dt 17,14–17, pois, revela uma pedagogia divina de rara sutileza. Deus não governa Israel pela negação total do desejo, mas por sua contenção contingencial. O desejo mimético é assumido como dado antropológico incontornável; o que se transforma é sua tradução institucional. A monarquia israelita, ao menos em seu projeto normativo, não deveria reproduzir sem mais o modelo das nações, mas habitá-lo sob tensão, com freios internos que impedissem a escalada de violência típica dos impérios. O rei-irmão, sem cavalos em excesso, sem haréns diplomáticos, sem tesouros acumulados, é a tentativa bíblica de manter o poder dentro da fraternidade. O texto não promete sucesso automático — a história mostrará o quão difícil foi cumprir essas cláusulas mínimas —, mas oferece algo talvez ainda mais precioso: a consciência de que toda imitação política precisa de limites, sob pena de nos conduzir, quase imperceptivelmente, de volta ao Egito.

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