Idiota em Sentido Bíblico

 

Prince Myshkin in Front of Aristocracy in Parlor de Fritz Eichenberg (gravura em madeira, 1956)


O Evangelho não é deste mundo — e essa ideia, tantas vezes repetida de modo piedoso e inofensivo, é na verdade dinamite metafísica. Ela indica que a lógica evangélica não apenas corrige excessos morais, mas subverte as próprias categorias com que organizamos o real. Nesse sentido, o temor de Cálicles no Górgias de Platão revela-se profético: há discursos e dialéticas cuja força não está em reforçar as categorias vigentes, mas em virá-las do avesso. O cristianismo introduz no mundo um princípio que desestabiliza a distinção confortável entre vencedores e vencidos, justos e injustos, amigos e inimigos. O inimigo, a propósito, deixa de ser uma categoria politicamente manejável para tornar-se um conceito a ser sacrificado: algo que não se combate pela aniquilação, mas pela conversão do olhar.

É verdade que o Evangelho contém uma proposição factual incômoda: o discípulo será injuriado, perseguido, odiado por causa de Cristo. Contudo, dessa constatação não decorre — nem logicamente, nem teologicamente — o direito, muito menos o dever, de cultivar inimizades. Fazer isso seria reincidir precisamente na sabedoria deste mundo, fundada na rivalidade mimética, na antecipação do conflito e na administração estratégica do ressentimento. São Paulo é explícito: para ser sábio aos olhos de Deus, é preciso aceitar tornar-se tolo aos olhos dos homens. O idiota evangélico é aquele que não calcula seus interesses, não faz a contabilidade dos riscos e não estrutura sua ação a partir da ameaça do outro. Por isso, ele não tem inimigos: não porque viva numa irrealidade sentimental, mas porque recusou o jogo que transforma divergência em hostilidade.

É aqui que se pode localizar o problema brasileiro recorrente de certos bastiões da tradição. Eles não são — assim como certo Corção não foi — idiotas o bastante nesse sentido bíblico. São, com frequência, brilhantes na exposição doutrinal, rigorosos na distinção conceitual, corretíssimos na formulação teológica. Uma pessoa pode estar inteiramente certa, por exemplo, ao defender o título de Corredentora de Nossa Senhora, com argumentos sólidos e fontes irrepreensíveis. Nada disso, porém, autoriza a transmutação automática do erro alheio — ou mesmo da simples discordância — em inimizade pessoal. Não há autorização no Evangelho para fazer de Tucho um inimigo porque pensa diferente, porque está errado ou porque ocupa uma posição eclesial discutível. Transformá-lo em adversário a ser abatido é abandonar o terreno do logos e ingressar no da rivalidade, onde a verdade já não ilumina, mas legitima a agressão.

Aos olhos do mundo, combater o erro é quase sempre uma virtude autoevidente. Confunde-se facilmente zelo com beligerância, clareza com dureza, fidelidade com hostilidade. O Evangelho, contudo, introduz um critério diferente: erguer-se com violência — ainda que simbólica, retórica ou doutrinária — contra alguém que, se não representa a escolha ideal, é aquele que o Papa efetivamente mantém no cargo, é escandalizar-se da mediocridade apostólica. Em termos mais profundos, é escandalizar-se da própria pedagogia de Cristo. Afinal, foi Ele quem escolheu pescadores obtusos, discípulos lentos, um traidor e um negador; foi Ele quem decidiu confundir os fortes com o que há de fraco no mundo. Recusar essa lógica, em nome de uma Igreja imaginária composta apenas por homens brilhantes e decisões impecáveis, é recusar o modo concreto como Deus age na história.

O cristianismo não promete uma comunidade de excelência humana, mas um corpo atravessado pela graça. E essa graça não se manifesta na eliminação dos fracos, mas na paciência com eles. O problema real, portanto, não está na mediocridade apostólica, mas na incapacidade de suportá-la sem recorrer às armas da sabedoria deste mundo. Quem não aceita ser idiota — no sentido evangélico — acaba sempre fabricando inimigos, ainda que em nome da verdade. E, nesse ponto, já não é o Evangelho que fala, mas Cálicles que sorri, aliviado, ao ver que a ordem do mundo permanece intacta.


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