O Silêncio Eloquente do Evangelho


Há uma tese recorrente na exegese contemporânea — já tão recorrente que adquiriu a respeitabilidade de um hábito — segundo a qual os Evangelhos seriam o produto de uma “comunidade criativa”. Criativa, aqui, não no sentido benigno das artes, mas no sentido alquímico de quem mistura metais distintos e depois jura que o ouro sempre esteve ali. Teríamos, assim, uma fusão pouco discernível entre o pensamento do Jesus histórico e as elaborações teológicas da comunidade primitiva, elaboradas sob pressão das circunstâncias, sobretudo da expectativa da parusia iminente. O resultado seria um Jesus parcialmente reconstruído, adaptado, por assim dizer, às urgências pastorais de seus seguidores. Contra esse modo de ver, entretanto, há ao menos dois argumentos que me parecem decisivos.

O primeiro deles é de uma simplicidade desconcertante. A teologia da comunidade primitiva, longe de se colocar no mesmo patamar dos ensinamentos de Jesus, sempre se reconheceu como inferior a eles. Se assim não fosse — se, como pretendem os partidários da criatividade comunitária, a expectativa da Segunda Vinda tivesse dominado de tal modo as inteligências a ponto de relativizar tudo — seria natural que se atribuíssem a Jesus instruções explícitas sobre o que fazer depois de sua morte, durante o intervalo incômodo entre a cruz e a parusia. Esse intervalo, aliás, foi o grande problema existencial da primeira geração cristã: Cristo morreu, ressuscitou, subiu aos céus — e o mundo continuou. Nada seria mais tentador, nesse contexto, do que colocar nos lábios de Jesus um manual mínimo de sobrevivência eclesial para tempos prolongados. No entanto, os Evangelhos guardam um silêncio quase constrangedor a esse respeito. E silêncio, nesse caso, não é omissão; é fidelidade. Ele funciona como um marcador negativo, uma linha de demarcação entre aquilo que pertence ao ensinamento de Jesus e aquilo que é reflexão posterior da comunidade. O Evangelho não fala porque Jesus não falou — e a comunidade aceitou pagar o preço desse silêncio.

O segundo argumento é ainda mais eloquente, porque toca num problema vital, não periférico, da Igreja nascente: a recepção dos cristãos vindos do paganismo. Tratava-se de uma questão explosiva, capaz de dividir a comunidade e comprometer sua expansão: os gentios deveriam ou não se judaizar? Ora, segundo os críticos da comunidade primitiva, ela teria sido suficientemente “criativa” para introduzir, ex post facto, cenas e teofanias nos Evangelhos — como a manifestação divina após o batismo de Jesus — a fim de resolver disputas menores, como a rivalidade entre discípulos de Jesus e de João Batista. Se isso fosse verdade, seria de esperar que a questão muito mais grave da judaização dos gentios tivesse deixado marcas ainda mais profundas e diretas nos lábios do próprio Jesus. Bastaria um dito claro, uma sentença inequívoca, e o problema estaria resolvido com autoridade máxima. Mas não é isso que acontece. A controvérsia é solucionada em Atos 10, pela visão de Pedro em Jope, e depois pelo discernimento apostólico, não por uma palavra retroativamente atribuída a Jesus. A comunidade, mais uma vez, prefere o caminho mais trabalhoso: distinguir cuidadosamente entre o que Jesus disse e fez e o que os apóstolos, iluminados pelo Espírito, compreenderam posteriormente.

Esses dois dados — o silêncio de Jesus sobre o entretempo e a resolução apostólica, e não evangélica, do problema dos gentios — revelam algo fundamental: a comunidade primitiva tinha consciência aguda de que não lhe era permitido confundir sua teologia com a tradição de Jesus. Ela pensava, interpretava, discernia, mas não se autorizava a corrigir o Mestre nem a suprir suas palavras com engenhosidade piedosa. Em tempos em que se costuma atribuir à Igreja nascente uma criatividade quase literária, talvez seja preciso reconhecer nela uma virtude bem menos chamativa e muito mais exigente: a contenção. A fidelidade, afinal, não é a arte de dizer mais, mas a coragem de não dizer aquilo que não se ouviu.   

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