Perfil de uma Pessoa Boa

 


Há pessoas que parecem habitar uma zona de existência paralela à maior parte da vida social contemporânea. Por uma espécie de instinto espiritual e temperamental, colocam-se à margem da dinâmica da competição, da comparação e da busca por reconhecimento público. Seu desejo não se organiza segundo o sistema ordinário de modelos — não se orienta deliberadamente pelo espelhamento em figuras admiradas nem pela oposição a rivais temidos. Elas procuram fundar seus critérios de valor quase exclusivamente em uma intuição interior do bom e do belo, e de modo mais vivencial do que teórico, mais sensível do que reflexivo. Isso não significa isolamento nem indiferença: antes, produz uma disponibilidade incomum para formas de doação isentas de cálculo, como a amizade e atividades filantrópicas ou serviços onde não vige a lógica do prestígio, do retorno simbólico e do capital social, onde, enfim, justamente a escassez de esforços é a garantia de que qualquer investimento de vontade será aceito.

Esse afastamento prudente da rivalidade gera um modo de relação sem atrito. Não se trata só de passividade nem de mera docilidade psicológica, mas de uma capacidade singular de presença não competitiva: a pessoa não se instala no espaço do outro como ameaça, nem recebe a presença alheia como intromissão. Há, nesse tipo humano, uma suavidade de trato que deriva não de técnicas emocionais aprendidas, mas de uma quase ausência de comparação. Sua tranquilidade não é produto da vitória sobre si mesma — como ocorre com índoles mais ascéticas — mas de um alheamento originário em relação ao próprio impulso de medir-se pelos padrões alheios. Em meio aos naufrágios comuns da inveja social, tais pessoas brilham como portos: oferecem descanso precisamente porque não pedem tributação afetiva. A atração amorosa que despertam costuma nascer de que, junto a elas, o espírito encontra repouso, não estímulo nervoso à conquista.

No caso específico que tenho em mente, trata-se ainda de uma pessoa de fé católica explícita e de prática orante. Embora o foro íntimo seja sempre um território inviolável, o testemunho externo sugere uma maneira muito própria de se relacionar com o sagrado. Sua espiritualidade evita até mesmo aquilo que, para muitos, constitui o núcleo do caminho espiritual: a imitação. A figura de Cristo não aparece para ela como modelo, pois modelo implica comparação, e toda comparação, na sua experiência afetiva, é vivida como estranha ao movimento espontâneo do coração. Deus não se torna parâmetro diante do qual ela mede a própria insuficiência; torna-se antes Presença diante da qual ela simplesmente repousa. Sua oração, nos momentos mais elevados, assume mais a feição do êxtase de Santa Teresa do que do combate de Jacó: não há tensão dramática, confrontação com limites ou dialética entre, de um lado, propósito e, de outro, fracasso e recomeço. Há acolhimento mútuo e súplica suave por misericórdia — não apenas para si, mas também para os outros — como se a relação com o divino prescindisse do agonia característica de tantas espiritualidades centradas na luta.

A vontade, no perfil em questão, não atua prioritariamente como força projetiva guiada por um ideal claro formulado pela razão. Ela funciona antes como instância de resistência passiva. Trata-se de uma vontade defensiva, cujo núcleo não é mover-se para um futuro planejado, mas proteger o espaço interior contra a pressão dos modelos externos de realização pessoal. A recusa silenciosa de medir-se pelos parâmetros do êxito social não nasce de um juízo intelectualizado, mas de uma reação quase instintiva. A oração, pois, não entra em jogo como um instrumento para elaborar modelos interiores substitutivos — ideais espirituais, projetos de perfeição -, precisamente porque a lógica do “modelo” lhe é intrinsecamente estranha à consciência. Sua experiência oscila entre dois polos: diante de certas figuras, percebe uma dignidade absoluta, situada além de toda comparação e, portanto, inaplicável como regra de vida; diante de outras, capta uma deficiência que as torna aquém de qualquer desejo de espelhamento. Nesse cenário, conversar com Deus não equivale a orientar a vontade para metas precisas adiante, mas a buscar consolo — termo que aqui deve ser entendido não como anestesia espiritual, mas como reposição de sentido e de serenidade existencial.

A sua relação com a Igreja, também influenciada por essa recusa consciente de modelos, merece uma consideração à parte. No essencial, observa-se nela uma fidelidade sincera à autoridade moral do Papa, mediada pelo desejo de “fazer o certo”. Contudo, a Igreja também é local onde os modelos inconscientes encontram um meio para se expressar. Assim, determinadas posições afetivas pessoais adquirem o peso de convicções morais objetivas. Ao mesmo tempo, esses modelos, conservadores na sua maioria, instauram um conflito entre o que seria a Igreja verdadeira de ontem e a falsa de hoje. O movimento de obediência, pois, perde seu caráter monolítico e ganha uma certa ambiguidade.  Daí decorre uma postura de cautela crítica frente a documentos e orientações eclesiais recentes percebidos como progressistas ou modernizantes. Sua adesão a modelos conservadores, justamente por se dar sob a superfície da consciência, não assume, porém, feição militante; ela não se transforma em combate público nem em desqualificação agressiva. Funciona sobretudo como um marcador identitário e expressa o limite subjetivo da obediência quando esta se choca com a imagem que a pessoa construiu de si mesma enquanto alma preservada das corrupções do dia. O obstáculo à docilidade plena não é tanto a discordância doutrinária, mas o apego — ainda que sutil — a uma autocompreensão que não deseja ser desestabilizada.

Por fim, emerge outro ponto delicado: a crença íntima, quase pelagiana, em uma espécie de imunidade à inveja e ao ódio. Por não reconhecer em si mesma esses afetos como forças atuantes, ela não desenvolve uma vigilância específica sobre eles. Não há, interiormente, uma gestão de danos. Quando tais sentimentos afloram — inevitavelmente, pois fazem parte da condição humana decaída — tendem a apresentar-se sob a máscara do juízo moral: uma reprovação “cristã” dirigida à soberba ou à conduta alheia. Esse juízo, porém, não é acompanhado de movimento de aproximação em relação ao suposto faltoso; converte-se numa retirada cordial, elegante, socialmente irretocável. E esse afastamento, de fato, funciona como alívio momentâneo, e nunca como ruptura definitiva: a memória da ofensa ou do descompasso se dissipa rapidamente, e a hostilidade não se cristaliza. Sua disposição fundamental à conciliação acaba por dissolver a permanência do ressentimento antes que ele se enraíze. O rival, por assim dizer, sempre lhe sobrevive ao ódio. 

Em conjunto, esse perfil revela hoje uma alma cuja força não está na conquista, mas na hospitalidade interior; não na ascese dramática, mas na aceitação serena; não na vontade expansionista, mas na defesa discreta de um espaço íntimo paradisíaco que ela, generosamente, oferece aos outros e também a mim. Mas sua graça espiritual coincide com seu risco: ao afastar-se das dinâmicas de rivalidade, afasta-se também das tensões que frequentemente impulsionam o crescimento consciente e a conversão profunda. Vive sob o signo da paz — uma paz verdadeira, mas às vezes demasiado precoce, pouco forjada pelas purificações do conflito interior e exterior. Portanto, trata-se de uma personalidade espiritualmente luminosa, capaz de oferecer repouso aos outros, mas que talvez seja chamada, em algum momento, a descobrir que também a tranquilidade pode esconder convites não aceitos à maturidade — aquela maturidade que nasce menos do consolo que da coragem de atravessar o desconforto da transformação. Particularmente, o amor que uma alma assim me desperta é, ao mesmo tempo, descanso e motor: descanso para os que sofremos de excessiva rivalidade; e motor para fazer com que essa serenidade, sem perder sua suavidade essencial, encontre ainda mais profundidade e liberdade sob a luz de uma verdade mais consciente.


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