Tensões em torno da Missa
Um desentendimento recente entre um ex-frequentador da Missa Tradicional celebrada na Administração Apostólica e fiéis atualmente vinculados à comunidade lançou novamente ao espaço público uma questão recorrente no catolicismo contemporâneo: a Missa segundo o rito reformado constitui apenas uma opção litúrgica distinta ou representa, em si mesma, uma ruptura doutrinal? O conflito, que em certos momentos descambou para ataques pessoais e fofocas — sintomas do que René Girard identificaria como “perda do objeto”, quando a discussão se desloca do tema central para a hostilidade interpessoal —, reacendeu um debate que, embora antigo, parece ganhar intensidade em ciclos recentes.
É indisputável que os gestos litúrgicos da Igreja se apoiam na Escritura e na Tradição. Ao mesmo tempo, a própria história da liturgia mostra que existe margem legítima para diversidade na expressão concreta desses princípios. Não se trata de relativizar conteúdos doutrinais, mas de reconhecer que a aplicação prática de fundamentos abstratos não ocorre em regime de uniformidade absoluta — algo que somente sistemas totalitários conseguem impor. Exigir que um rito, com sua estrutura simbólica e justamente por isso polissêmica, “confesse” uma doutrina contrária à tradicional, como se pudesse ser coagido a se transformar em tratado teológico, parece um deslocamento de expectativas: à Missa Nova se pede algo que nenhuma forma ritual é capaz de entregar.
Nesse quadro, a legitimidade do rito reformado não se encontra em questão: ele está plenamente inserido na vida doutrinária da Igreja. Paralelamente, a Missa antiga continua a existir por efeito de uma tolerância institucional voltada a uma sensibilidade litúrgica ainda viva — e que, por essa mesma tolerância, tende a subsistir por algum tempo. Essa convivência é precária, ainda que reconhecida juridicamente em bases mais firmes no caso da Administração Apostólica, cuja lei especial não foi afetada diretamente pela Traditionis Custodes. Para além do direito, todavia, é sempre um convívio que impõe desafios de compreensão de parte à parte.
Entre eles está o problema da coerência por parte dos tolerados: receber a concessão de celebrar o rito antigo pressupõe não apenas a observância formal das normas canônicas, mas também uma conduta marcada pela disposição ao convívio. Parece haver uma contradição entre usufruir de uma política de tolerância e adotar posturas intolerantes diante de outros. Sob esse prisma, ao menos em tese, não seria razoável, como pode ter sido cogitado pelas autoridades da Administração, interditar um fiel — ainda que crítico ou dissidente de Roma — de simplesmente assistir às celebrações.
Por outro lado, o cenário não é desprovido de tensões intraeclesiais. A coexistência com vozes abertamente críticas aos últimos pontificados representa um risco institucional para comunidades vinculadas à liturgia tradicional, frequentemente suspeitas de alimentar resistências à autoridade de Roma. Ao afastar um frequentador identificado com posturas de insubmissão, a Administração Apostólica pareceria sinalizar fidelidade inequívoca à autoridade papal.
A questão decisiva é saber se essa sinalização alcançaria o destinatário pretendido no mesmo idioma deste. Em outras palavras, é legítimo perguntar se a linguagem usada localmente — a exclusão de um indivíduo dissidente — seria compreendida pela Santa Sé e pelo Papa sob o signo da fidelidade. O gesto pode ser interpretado menos como prova de adesão e mais como um sinal de que, em torno da Missa antiga, persiste um ambiente conflituoso, no qual a lealdade a Roma precisaria ser reiteradamente demonstrada por meio de atos de contenção.
Além disso, tal estratégia destoaria de uma das marcas mais evidentes do papado recente: a aposta no irenismo, ou seja, na disposição ao diálogo, à integração e à reconciliação mais do que no confronto direto. Em um contexto no qual a Igreja busca reduzir antagonismos externos e internos, toda medida de exclusão que personalize conflitos corre o risco de gerar novas vítimas simbólicas e aprofundar divisões, em vez de curá-las.
Assim, caso a Administração Apostólica entenda ser necessário afastar periodicamente aqueles que radicalizam o apego à tradição a ponto de romper com Roma, não é certo que isso produza o efeito de tranquilizar o centro da Igreja. Pelo contrário, pode consolidar a impressão de que o entorno da Missa antiga abriga focos de resistência à obediência, exigindo vigilância constante. A tentativa de demonstrar fidelidade pode, paradoxalmente, resultar na exposição de uma fragilidade: a dificuldade de harmonizar tradição, pluralidade sensível e comunhão eclesial sem recorrer a mecanismos excludentes.