Teologia da Crise Brasileira

Arca de Noé, de Margaret Gere

O relato do dilúvio bíblico (Gn 6–9) pode ser lido a partir de três chaves interpretativas distintas, cada uma delas portadora de pressupostos teológicos, antropológicos e hermenêuticos próprios. A escolha entre essas leituras não é neutra: ela revela o modo como se concebe Deus, o mal e a responsabilidade humana na história.

A primeira leitura entende o dilúvio como um mero fenômeno hidrológico, posteriormente revestido de linguagem religiosa pela cultura de Israel. Nessa perspectiva, a narrativa bíblica seria uma elaboração simbólica de uma catástrofe natural real, comum ao antigo Oriente Próximo, reinterpretada à luz das categorias religiosas do povo hebreu. O papel de Deus, aqui, não passa de um recurso literário ou de uma hipótese explicativa própria de uma mentalidade pré-científica. O estudioso moderno, iluminista, descreve o texto, mas não se compromete com ele. Como teologia, porém, essa leitura é profundamente insuficiente. Ela esvazia a realidade de Deus, reduzindo-o a personagem narrativo ou projeção cultural, e transforma a Escritura em um objeto arqueológico, interessante, mas espiritualmente inócuo. Não se trata propriamente de uma interpretação teológica, mas de uma suspensão do juízo teológico.

A segunda leitura já é, de fato, teológica: o dilúvio é entendido como manifestação direta da ira divina contra a corrupção moral da humanidade. Deus, ofendido pelo pecado, reage com violência punitiva, destruindo quase toda a criação. Essa leitura leva Deus a sério, mas o faz a um custo elevado: projeta nele uma forma de violência que é tipicamente humana. Trata-se de uma teologia ainda profundamente mítica, no sentido preciso do termo: Deus aparece como o agente último da destruição, legitimando, no plano divino, aquilo que no plano humano é a lógica do castigo, da retaliação e da eliminação do culpado. Ainda que motivada por sincero zelo religioso, essa interpretação corre o risco de sacralizar a violência e de tornar Deus semelhante às divindades iradas dos mitos antigos, mais do que ao Deus revelado por Jesus Cristo.

A terceira leitura desloca radicalmente o eixo da interpretação. O dilúvio não é causado pela ira de Deus, mas pela dinâmica autodestrutiva do pecado humano. A corrupção generalizada da humanidade rompe os vínculos fundamentais da criação — com Deus, com o próximo e com a terra — e gera um colapso que se expressa simbolicamente como catástrofe cósmica. Deus não é o autor da destruição, mas aquele que a permite, respeitando tragicamente a liberdade humana, e que, ao mesmo tempo, se apresenta como o único Salvador possível no meio do caos. Deus se revela na arca, não na água. O centro da narrativa deixa de ser a violência divina e passa a ser a fidelidade de Deus que preserva um resto, abrindo a possibilidade de um novo começo. Essa leitura é menos mítica e mais evangélica: nela, o mal se destrói a si mesmo, e Deus permanece como aquele que salva, não como aquele que aniquila.

Essas três chaves de leitura podem ser aplicadas, de modo surpreendentemente fecundo, à crise brasileira contemporânea. Também aqui é possível enxergá-la, em primeiro lugar, como um mero fenômeno sociológico, político ou econômico, perfeitamente explicável por categorias imanentes, sem qualquer referência a Deus. Essa leitura tem seu valor analítico, mas, isolada, sofre da mesma insuficiência da primeira leitura do dilúvio: ela descreve, mas não julga; explica, mas não redime.

A segunda leitura vê a crise como manifestação da ira de Deus, um castigo infligido ao povo brasileiro por seus pecados coletivos. Essa interpretação é comum no discurso religioso popular e encontra eco em certo imaginário profético mal digerido. No entanto, ela repete o erro teológico da leitura mítica do dilúvio: atribui a Deus uma violência punitiva que espelha mais a indignação humana do que a revelação cristã. Além disso, essa visão tende a gerar culpabilizações genéricas, discursos de ódio moral e uma perigosa autolegitimação dos "justos" contra os “pecadores”.

Há, por fim, a terceira leitura: a crise como colapso interno de uma sociedade corroída por pecados estruturais — corrupção, mentira, idolatria do poder, desprezo pelos frágeis — cuja lógica autodestrutiva chega, em certo momento, ao limite. Não se trata de um castigo enviado do céu, mas de uma consequência histórica do mal acumulado. Deus não é o executor da ruína, mas o único capaz de oferecer perdão, reconciliação e recomeço. A salvação, aqui, não vem de soluções técnicas isoladas nem de expurgos morais violentos, mas do alto, como graça que interrompe a espiral de destruição.

O sensus fidei brasileiro rejeita de cara a leitura iluminista da crise como mero fenômeno sociológico. O povo crente percebe, com razão, que há algo de mais profundo em jogo. No entanto, esse mesmo sensus fidei oscila perigosamente entre a segunda e a terceira leituras: entre um Deus irado que pune e um Deus que salva do colapso que nós mesmos produzimos. A primeira dessas opções é compreensível, mas teologicamente regressiva e rançosa; a segunda é exigente, mas corresponde muito mais de perto à imagem de Deus revelada por Jesus, que não veio condenar o mundo, mas salvá-lo.

É, portanto, urgente exortar o leitor — especialmente o leitor crente — a assumir conscientemente a terceira visão. Ela não minimiza o pecado, nem suaviza a gravidade da crise; ao contrário, leva ambos a sério até o fim. Mas recusa atribuir a Deus o caos que nasce da própria desordem humana. Reconhecer o colapso do pecado é o primeiro passo para abandonar a tentação de encontrar bodes expiatórios e para abrir-se à única saída verdadeiramente cristã: a conversão, o perdão e a esperança que não nasce da força, mas da graça.

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