A Violência Necessária

O abuso pode ser definido, em termos mais ou menos rigorosos, como um desvio teleológico no exercício de um direito ou de uma prerrogativa institucional. Sempre que alguém investido de autoridade instrumentaliza sua posição para obter vantagens estranhas à finalidade jurídica que legitima esse poder, está caracterizado o abuso. O exemplo é prosaico, mas elucidativo: o superior que constrange o subordinado a prestar serviços particulares, totalmente alheios à missão da empresa ou do órgão público; ou ainda o funcionário que, amparado na ineficiência dos mecanismos de controle — a “vista grossa” da auditoria — ou em privilégios afetivos — o queridinho “filho do patrão” —, subtrai-se sistematicamente ao dever de trabalhar, explorando uma tolerância que ele próprio não mereceria. O denominador comum dessas situações é a hipertrofia do direito subjetivo ou da posição funcional, que se emancipa de sua finalidade objetiva.

Ocorre que a simples percepção da existência de um abusado — seja ele real ou apenas imaginado — já basta para desencadear reações psicológicas ambíguas. Duas delas, aparentemente opostas — o masoquismo e o sadismo —, partem, contudo, de um mesmo núcleo racional distorcido: a crença de que “o ser do modelo é o negócio”, ou seja, de que aquele que ocupa a posição abusiva detém, por isso mesmo, uma superioridade ontológica. O desprezo exercido pelo abusado passa a ser tomado como prova de sua grandeza: “se despreza, é porque está acima”. A partir desse pressuposto comum, dá-se uma bifurcação ideal. Uns se encolhem diante do modelo, regozijando-se na própria humilhação, interpretada como participação indireta no suposto esplendor do outro: eis o masoquista. Outros, recusando a posição subalterna, aspiram violentamente ao lugar do abusado, desejando tornar-se eles mesmos abusadores para ascender ao patamar idealizado: eis o sadista. Não raro, ambas as tendências ideais coexistem dentro da concreção da vida de um mesmo indivíduo, alternando-se conforme as circunstâncias: submissão perante modelos abusados e agressividade mimética em relação a seus pares.

É desse mecanismo que brotam inúmeras patologias existenciais e sociais. Uma particularmente interessante é a ambição autodestrutiva do estudante universitário que sacrifica amizades antigas, vida social e até deveres religiosos em nome de um sucesso intelectual absolutizado. Agindo assim, ele manifesta a adesão a um ideal projetado no professor ou pesquisador bem-sucedido, cuja imagem se torna tirânica: não se estuda mais por amor ao conhecimento ou pela responsabilidade própria de uma vocação intelectual, mas para “ser” aquilo que o outro parece ser. A lucidez empírica de Cal Newport, em How to Become a Straight-A Student, confirma esse diagnóstico por via prática: ao narrar sua investigação sobre a rotina de estudantes realmente bem-sucedidos, ele mostra que aqueles que mais se aproximam da proficiência acadêmica não são os obsessivos, sacrificados e socialmente amputados — os chamados nerds ou cdfs —, mas sim estudantes que mantêm vida equilibrada, limites claros e um método de trabalho sóbrio. A ambição desordenada não apenas consome o sujeito por dentro; ela tampouco atinge o fim que persegue, frustrando-se a si mesma precisamente por não compreender que a excelência não nasce do excesso mimético de entrega, mas de uma disciplina integrada à vida.

Essa ambição universitária, porém, está longe de ser a única. O vício do dependente químico ou pornográfico traduz a mesma lógica: a captura pela promessa de um desfrute potencializado que nunca se realiza plenamente, mas cujo adiamento infinito mantém o sujeito acorrentado ao desejo de “ser mais”. O espírito aventureiro que arrisca a própria vida em esportes extremos frequentemente se ancora nesse mesmo anseio por uma intensificação ontológica mediada pela figura do ousado e destemido. O narcisismo e o dandismo encontram aí seu alimento: não são simples expressões estéticas, mas performances orientadas a espelhar um modelo ideal que supostamente encarna uma forma superior de existência. A coqueteria obsessiva, a desordem sistemática de crianças que desafiam os pais, a revolta ruidosa de adolescentes, a dondoca que, valendo-se comodamente do salário do marido, organiza a própria vida em torno do ócio ou da exibição, furtando-se a qualquer compromisso — todos esses comportamentos podem ser lidos como variantes de uma mesma lógica subterrânea: a tentativa de constituir-se pelo desejo de ser um outro julgado mais pleno, numa dialética em que a identidade própria não nasce da ordenação interior, mas da imitação problemática de um modelo exterior. Forma-se, assim, toda uma “gente de subsolo”, cujo fundamento ontológico não é a posse serena de si, mas a inquietação permanente diante de um ser idealizado fora.

Contra esse círculo vicioso proponho o que pode ser chamado de uma violência radical. Não uma violência dirigida ao outro — o abusado concreto ou imaginado —, pois isso apenas reiteraria o movimento sadista e a lógica da disputa mimética; mas uma violência dirigida ao próprio sujeito posto diante do abusador. Trata-se de destronar, no interior da consciência, a figura do abusado do posto de modelo e recolocá-la em seu verdadeiro lugar: a de digno de misericórdia, mas não de imitação. Se quiserem, podemos considerar o abusador um "coitado", desde que a palavra, mais do que um expediente retórico de desprezo - o que seria patologicamente mimético - seja sinal de uma lucidez sobrenatural: o reconhecimento de que o abusador, longe de ocupar uma posição ontologicamente superior, é antes a expressão palpável de uma soberba vazia e de uma vaidade estéril. O subsolo, com suas neuroses e dependências, é o fruto apodrecido dessa árvore má: uma estrutura de desejos fundada na ilusão de que a grandeza reside na dominação ou no desprezo alheio.

Ao deslocar o abusado do pedestal interior que lhe conferíamos — recusando admirá-lo, temê-lo ou invejá-lo —, neutralizam-se simultaneamente as duas respostas patológicas: não mais nos submetemos como masoquistas ao seu império, nem aspiramos, como sadistas, a ocupar o seu trono. A violência radical sobre si é, portanto, um gesto ascético e libertador: a recusa consciente de fundar o próprio ser na imitação conflitiva de falsos modelos, substituindo a dialética da comparação pela restauração da finalidade interior da vida — aquela em que o valor de cada existência não depende da humilhação do outro, mas do reto ordenamento de si mesmo.

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