Contra as Trevas



São Paulo, ao exortar os cristãos de Éfeso a revestirem-se da “armadura de Deus”, desloca o eixo da luta para um plano que frustra as leituras imediatistas da história e da política. “Induite armaturam Dei, ut possitis stare adversus insidias Diaboli. Quia non est nobis colluctatio adversus sanguinem et carnem sed adversus principatus, adversus potestates, adversus mundi rectores tenebrarum harum, adversus spiritalia nequitiae in caelestibus” (Ef 6,11–12). A perícope é decisiva porque impede que a análise do conflito humano se encerre no registro sociológico ou psicológico. Há, por trás das estruturas visíveis de opressão, uma engrenagem invisível, cuja inteligência é metafísica: trata-se de uma ordem de sedução e queda, não apenas de coerção e morte.

A análise de uma ordem social martirizadora — seja ela explicitamente persecutória, seja travestida de legalidade e moralidade pública — revela justamente esse nível mais profundo. À primeira vista, parece evidente que um sistema que persegue inocentes engendra, por necessidade interna, uma violência contra si mesmo, pois desperta nas vítimas o desejo compreensível de destruir os agentes da injustiça. Tal leitura, contudo, permanece aquém do discernimento cristão. O que se manifesta como reação natural da vítima pode ser, sob o ângulo sobrenatural, o mais perfeito triunfo do sistema. A finalidade última dessa ordem não é apenas silenciar o opositor, mas conduzi-lo ao escândalo em sentido bíblico: fazê-lo tropeçar, consentir interiormente na lógica que o esmaga. Quando o possível mártir, inflamado pela indignação, deseja tornar-se algoz de seu perseguidor, o mecanismo alcançou seu êxito. A vingança mimética não subverte a ordem opressora; antes, a confirma, pois converte a vítima em espelho moral do assassino, ratificando a gramática da morte que deveria ter sido denunciada. É nesse horizonte que a teologia moral impõe a distinção clássica das espécies de escândalo. 

Uma ordem social iníqua é, por sua própria configuração, fonte de escândalo per se. A ação do perpetrador não apenas causa dano externo, mas induz diretamente ao pecado. O exemplo paradigmático é o do governante tirânico que ameaça os cristãos de morte: a coerção pode levar o fraco à apostasia e precipitar o forte numa reação homicida que, embora motivada por indignação moral, constitui igualmente perda da graça. Em ambos os casos, o poder das trevas teve êxito: afastou a alma de Deus, seja pela negação explícita da fé, seja pela assimilação interior da violência que se devia combater.

Superada essa rivalidade, o que resta é alcançar a amizade e a salvação do algoz, o que pode ser visto como um apostolado um tanto escandaloso. Para, porém, melhor compreender a situação, convém lembrar que esses contextos de perseguição e polarização são particularmente propícios à mistura entre o escândalo per se e o escândalo per accidens, isto é, o escândalo passivo, recebido sem que tenha sido formalmente dado. Em tais sociedades, a suspeita torna-se um hábito moral, e a interpretação maliciosa de atos bons multiplica as ocasiões de queda. O discernimento, então, adquire uma complexidade quase hercúlea, sobretudo no campo do apostolado e da prudência. Suponha-se um cristão que, movido por autêntica caridade, cultiva uma amizade com o governante perseguidor. Se essa proximidade se dá de modo público e indiscreto, pode assumir a aparência do mal, sugerindo cumplicidade com a injustiça e configurando, assim, um escândalo ativo. Todavia, se a amizade é discreta, ordenada e isenta de qualquer adesão real ou aparente ao erro, e ainda assim provoca repulsa na comunidade, estamos diante de um escândalo per accidens. Aqui a teologia moral introduz uma ressalva decisiva: o dever de salvar almas não se subordina ao melindre dos observadores. Se o cristão dispõe de meios reais para alcançar a conversão do tirano — insinuando-se em seu afeto para conduzi-lo à verdade —, tal amizade não é uma concessão, mas um imperativo apostólico. O risco de escandalizar passivamente terceiros não pode suplantar a obrigação de caridade para com aquele cuja tirania é, antes de tudo, um caminho de perdição eterna.

À luz dessas distinções, torna-se possível compreender que a luta evocada por São Paulo não se resolve nem pela fuga, nem pela supressão física do adversário nem pela busca de neutralização meramente externa da injustiça. Trata-se, antes, de um combate espiritual que exige vigilância interior, precisão conceitual e prudência prática na condução da vida social. A identificação correta das formas de escândalo — ativo e passivo, per se e per accidens — não constitui um exercício escolástico abstrato, mas uma ferramenta indispensável para evitar que a reação à iniquidade se converta em cooperação metafísica com ela. Assim, revestir-se da armadura de Deus significa, em última análise, preservar a integridade moral no interior de estruturas hostis, resistindo às suas insídias não apenas com coragem, mas com discernimento, de modo que a oposição ao mal não se faça à custa da própria ordem espiritual que se quer ter a fidelidade de defender.

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