Entre o Genial e o Ridículo
Ao revisitarmos o memorável discurso de 2015 na ONU, onde a então presidente Dilma Rousseff discorreu sobre a necessidade de "estocar vento", deparamo-nos com um choque cultural tipicamente brasileiro. Nossa tradição pública é filha do bacharelismo, esse apreço pela retórica floreada, onde a forma muitas vezes precede o conteúdo. Nesse cenário, a figura do tecnocrata, com sua linguagem fria e utilitária, já caminha em terreno hostil; quando a tecnocracia tropeça nas palavras, o descompasso se torna imperdoável.
Naquele episódio, a expressão "estocar vento" é um desses tropeços e funcionou como um signo vitimário perfeito. Pouco importava a precisão física sobre a energia cinética; a frase tornou-se a marca necessária para que a opinião pública, sempre cansada e tensa, pudesse canalizar seu desprezo. O riso que se seguiu não foi apenas humor, mas um cimento social: ao ridicularizar a oradora, a sociedade purgada sentia-se, com uma ponta de vaidade, ao mesmo tempo mais inteligente que a governante e mais unida contra ela. Note-se a ironia do episódio. Ao utilizar uma terminologia hermética sobre o armazenamento de energia, Dilma tentava encarnar o arquétipo do "Gestor Infalível", buscando um diferencial de competência. Ela não queria apenas comunicar, mas sim ostentar uma compreensão da realidade que escapava ao cidadão comum. Contudo, ao elevar-se demais acima da linguagem compartilhada, o efeito foi inverso: para a multidão, quem fala uma língua estranha não é um sábio, mas um ser desconexo. A máscara de inteligência superior caiu, e nossa Dilma deslizou com certo estrondo desconfortável da posição de autoridade para o papel de vítima do escárnio coletivo.
Hoje, com ela no BRICS, observamos um desdobramento fascinante dessa trama. O esnobismo técnico de Dilma revela-se, a um só tempo, impenitente e envergonhado. Impenitente, pois ela aponta para a agenda global de energia limpa e diz, com indisfarçável satisfação: "vejam, o armazenamento que anunciei é o futuro". Mas é também um esnobismo envergonhado, pois ela evita cuidadosamente repetir a expressão literal. Aqui reside a sutileza da psicologia da personagem: a frase "estocar vento" tornou-se um escândalo, uma armadilha quase sobrenatural. Dilma percebe que aquelas palavras específicas possuem uma carga "maldita", capaz de reacender instantaneamente o riso e a violência simbólica. Como quem desvia de uma pedra no caminho, ela defende o conceito racionalmente, mas contorna o fetiche verbal que a condenou.
Nessa nossa era, quando o sacrifício não é mais silencioso, Dilma recusa a culpa clássica do bode expiatório. Ao reivindicar a validade científica de sua visão, ainda que evitando supersticiosamente o escândalo da expressão maldita, ela tenta operar uma inversão de papéis: desconstrói o mito de seu linchamento e sugere, com a serenidade de quem se sente vingada pela história e pela técnica, que a falha não estava em sua profecia, mas na incapacidade da plateia em compreendê-la. O pequeno problema é que ninguém, nem Dilma nem a multidão, gosta de ser chamado de burro, o que mantém a relação entre ambos ainda no nível da rivalidade. Mesmo na melhor das hipóteses, Dilma voltará a ser temida e respeitada, mas nunca amada.