Na Cama com a Esposa


Ontem, na cama, eu e minha esposa conversávamos sobre o bem da alma de nossos pais.

— Para a coisa ir adiante — eu disse —, é necessário, da nossa parte, um tratamento de choque à base de Bíblia e Catecismo. Aplicamos em períodos cada vez menos frequentes, até chegar o momento da alta definitiva, em que o paciente possa viver sem auxílio de aparelhos externos, porque já tem, dentro dele, o mecanismo da vida...

— Isso é loucura! — ela rebateu. — A conversão é, antes de mais nada, uma relação de amizade e compreensão. Citar versículos ou conceitos de catecismo, ou ficar cobrando isso deles, pode acabar sendo um proceder diabólico ou um blitzkrieg apostólico. Lembra? O diabo também cita as Escrituras para tentar desviar Cristo de sua missão!

Sem me deixar abalar na fé firme na palavra de Deus que me brota do coração, expliquei:

— O Evangelho não é uma porta fechada contra meninos mimados, mas sim um mimo de passeio para fora da porta de casa.

Percebendo a confusão dela, continuei:

— Se o texto não abre a cabeça e o coração, o que há é uma falta de compreensão pré-bíblica e pré-catecismo. São preconceitos imprescindíveis, mas não no sentido vulgar. É algo como o que os constitucionalistas, imitando Gadamer e Heidegger, chamam de "pré-compreensão", que é indispensável para entender o texto em toda a sua força. A força do Evangelho está em levar a pessoa a reconhecer a si mesma e os outros como um adorador nato do Deus da verdade. Alguém que, não obstante tenha se desviado do caminho, ainda pode voltar a Ele através da missa e da confissão sacramentais. Em duas palavras, isso é a filiação divina.

Fiz uma pausa e propus o seguinte esquema, sentido falta de um quadro para desenhar:

— Pense no ir e vir constante da hermenêutica do Evangelho. Ele descreve um triângulo com um vértice duplo: o problema, que se divide em circularidades pessoais ou sociais; o texto; e a pré-compreensão do intérprete como filho de Deus. A diferença entre ler o Evangelho como um membro, por exemplo, do Comunhão Popular, e ler como um fiel comum — sempre como filhos de Deus e sempre com mesmo texto, pedra angular que não nos é dado substituir em nome de nada — é que os problemas sociais demandam soluções rápidas. O membro do Comunhão Popular, assim, é animado pela urgência da caridade de que fala São Paulo. Já os problemas pessoais, uma vez tomada a decisão interior, sempre podem esperar mais um pouco para se concretizarem e sempre podem se concretizar melhor ou de maneira diferente...

— Espere aí — ela me interrompeu arregalando os olhos como se não fosse dormir nunca mais. — Na ordem da caridade, eu considero meus problemas pessoais prioridade! Porque, sem mim, a salvação não poderia chegar a outras pessoas. 

— Eu sei que você é assim. Conheço-vos, Senhora dos Grandes Problemas Pessoais, e isso é um erro grave de pré-compreensão no vértice do intérprete! — respondi, irônico. — O Evangelho, como texto de salvação individual, não é para pessoas complicadas, mas sim para pessoas simples, cujos problemas se resolvem com dois palitos. Você, idealmente, é prioridade, mas uma prioridade muito pequena e que não deveria custar muito tempo. O demônio é quem mistifica a salvação pessoal, como se ela dependesse de uma certa ordenação mágica de si, da casa, do país ou do mundo inteiro a partir da verdade.

Vendo que ela ficara confusa mais uma vez, decidi elevar um pouco o nível, até aquela altura onde a paisagem se vê com mais clareza, ainda que sem muitos detalhes. Sem nos perdermos nos infinitos conceitos que povoam o panorama da salvação, conduzi-a para o porto seguro de Mateus e Lucas 4s:

— Preste atenção. A sedução com que o capiroto busca atrair Cristo começa assim: a filiação divina significaria uma herança automática do poder criativo, capaz de transformar pedras em pães. Isso é falso na medida em que tudo vem de Deus qua substância, vale dizer, ontologias inalteráveis, ainda que operáveis em prol do bem comum. E isso é condição do trabalho que ganha o pão. A ordem mágica — rectius, angelical — que guarda o homem é a doutrina da Igreja à la Platão. Ela nos permite assimilar as maiores "pedras", isto é, todos os escândalos da experiência histórica, de Papas e fiéis comuns, dentro de um plano ideal de salvação e de juízos prudenciais. E a recompensa de todo estudo e trabalho é, no fim das contas, prestar um culto a Deus com o coração indiviso, de onde Satanás foi exorcizado.

Tendo terminado, achei que ela já estivesse dormindo, mas fui surpreendido por uma síntese brilhante, que iluminou o quarto como o sol da madrugada:

— Então — ela concluiu —, o Evangelho foi escrito para pessoas que trabalham em prol do bem comum, conhecem a doutrina da Igreja com um quê da misericórdia e gastam algum tempo no dia e na semana adorando a Deus, nessa ordem. Quem faz isso pode confiar que, ao se lembrar da Escritura e dos conceitos do catecismo, está sendo guiado pelo Espírito Santo. O resto é que é pré-compreensão enviesada dos diabos.

Meu conselho prático é este: casem-se, como eu, com quem não dorme diante das suas teorias.

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