De Teófilo a Emaús: Como Entrar e Sair do Evangelho

Ceia de Emaús, de Caravaggio

Ainda nos tempos de escola, um amigo chamado Marcos Leal me confessou certa vez ter lido um romance tão extraordinário que sentia vontade era de fazer as malas e ir morar dentro do livro. Na época, a imagem me pareceu apenas o exagero de um leitor entusiasmado, mas hoje percebo nela uma intuição muito precisa: sem esse amor à obra, sem a disposição de habitá-la, é impossível compreendê-la em sua profundidade. A verdadeira leitura exige que abandonemos a postura de meros investigadores externos para nos mudarmos para a geografia da narrativa. O mais interessante, contudo, é notar que os grandes textos não apenas nos oferecem essa hospitalidade. Eles chegam a espalhar pistas estruturais de como podemos nos instalar ali dentro. Um caso clássico — e sublime — dessa pedagogia literária é o Evangelho de São Lucas.

Sempre tive para mim que, quando São Lucas direciona seu Evangelho a Teófilo, ele como que ensina o leitor a habitar o texto. Para ler o Evangelho e ter a inteligência iluminada, é preciso antes cultivar na vontade o amor a Deus, isto é, a teofilia. Lucas, uma vez de posse dessa tecnologia da imersão textual — pela qual o autor suga e filtra a alma do leitor para introduzi-la nas várias camadas de significado a serem apresentadas —, não hesita em empregá-la também no final da sua narrativa, para ensinar o destinatário da mensagem a sair convertido da leitura. Em São Lucas, a técnica de imersão textual é também uma de emersão.

Em Emaús, o discípulo anônimo, ao lado de Cléofas, é, pois, também o leitor. A pergunta que se impõe é se esses dois empregos da técnica de recepção conversam entre si e com o Evangelho como um todo. A resposta é que sim, eles formam um sistema maravilhoso. O leitor que ama a Deus no primeiro momento é o mesmo que, desiludido com uma encarnação que não é imediatamente transbordante e não transcende já a pessoa física de Jesus — pois, nas próprias palavras do Mestre, o seu Reino não é deste mundo —, precisa ser direcionado para a Igreja, onde esse reino vive escondido. O Reino de Davi, que Cristo veio realizar, é para aqueles que, tendo amado a Deus, encontram o seu império na Igreja cuja sede, naquele momento histórico, é Jerusalém, mas cujo significado alegórico hoje é Roma e o anagógico amanhã é o céu. 

É interessante notar ainda que o foro interno dos discípulos de Emaús é iluminado por Jesus de uma maneira tão pessoal e particular, tão customizada, que o Evangelista, desesperado de torná-lo útil também para outro indivíduo, abstém-se de lhe narrar os detalhes. A meu ver, a confissão e a direção espiritual devem ser conduzidas de modo a realmente colmatar essa lacuna e tocar naquilo que é inefável até para um evangelista como São Lucas: a alma de cada um de nós. O objetivo é justamente aplainar o terreno da alma, tirando-lhe os altos e baixos da euforia e da depressão ou da mistura de ambos, que é provavelmente o que impedia Cléofas e seu amigo de verem Jesus. Tristes com a crucificação e ao mesmo tempo desconfiadamente eufóricos com a ressurreição ainda incompreensível rumorejada pelas santas mulheres, eles não tinham condições de decidir o que fazer. É exatamente por isso que devemos olhar com tanta preocupação para as ingerências indevidas, sobre o foro interno, cometidas pelo externo, que muitas vezes está na origem de altos e baixos mundanos.   

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