Em Nome da Laicidade
Ao publicar no Facebook um textinho sobre a confusão de foros interno e externo na Obra, um comentarista me enviou um link para uma resposta oficial sobre o livro de Gore para, segundo as suas palavras, "me ajudar". A tal resposta não ajuda tanto, porque omite fatos importantes, dentre eles, o decreto Quemadmodum de 1890. Além disso, notem o disparate. Eu, que ouso aventar que a Obra não é perfeita, estou num estado espiritual tal que preciso de ajuda; não a Obra, cujo carisma periclitante mereceu uma atenção especial do Papa Francisco e cujos estatutos estão para serem revisados em Roma. Eu não mencionaria esse episódio, em si irrelevante, se não fosse para dizer que a reflexão que vai a seguir não é para pessoas que julgam que não se pode ser amigo da Obra dizendo-lhe a verdade.
O livro do jornalista Gareth Gore sobre o Opus Dei, de fato, possui uma virtude curiosa: ele é tão sincero em sua reportagem que acaba fornecendo as provas que destroem o que, selecionados os fatos, seria a sua própria tese central de mais força. Esse argumento mais contundente é o de que a mentalidade laical, potencializada pela unidade de vida do Opus Dei, pode sofrer desvios, que a prelazia, num lance de terceirização de culpa, coloca na conta da liberdade individual dos membros... É óbvio que os desvios são sempre da liberdade individual dos membros, que, desde o início, aceitaram as regras do jogo. Isso não significa, porém, que a estrutura da Obra, no que ela tem de não-carismático, não possa contribuir para esses erros. Não estou falando da santidade ou pilantrice individual dos membros, nem muito menos colocando em questão a boa-fé de fundação, mas sim de como a Obra hoje se organiza a partir da direção espiritual formal.
Voltando, porém, ao livro do Gore e à sua franca fraqueza, ele relata que D. Luis Valls-Taberner, um dos fundadores do Banco Popular espanhol, reunia-se em Roma com o governo da prelazia e, portanto, estava mais a par das necessidades econômicas de governo do que o conselho local do centro ou casa onde morava. Isso significa que as necessidades de dinheiro não lhe chegavam via direção espiritual regular, precisando de um condutor externo. Para o nosso autor Gore, ligado mais à matéria do que às formas, o canal por onde a pressão econômica se fazia sentir pouco importa. Tudo é Opus Dei, nas periferias de Madrid ou no centro de Roma. Mas, ao focar na materialidade e no fluxo do dinheiro e ignorar as formas institucionais, o próprio Gore parece fornecer, infirmando a força de sua crítica, a prova de que não houve um desvio na direção espiritual regular de D. Luís. O relato tal qual alinhavado por Gore demonstra que o influxo espúrio não veio do acompanhamento espiritual, esvaziando a tese de que o problema estaria na estrutura basilar e local que orienta a liberdade do membro rumo à santidade.
Não há, portanto, por parte da Obra nesse caso, um desvio positivo ou ativo na direção espiritual regular. Havê-lo-ia negativo e omissivo, porém? Por que D. Luís precisava ir a Roma para saber como conduzir seus negócios se sua atuação profissional era livre e ele já tinha, em Madrid, todo o necessário para a direção de sua alma? Que obediência ele buscava realizar ainda? A meu ver, a estrutura secular da Obra força que, quando a mentalidade laical de um membro é de tal monta que ela não cabe no centro, seja necessário dar-lhe vazão através de uma conversa em Roma. Há, pois, algo estranho no âmbito da direção espiritual local de D. Luís, o que não é tão difícil de entender. Vejamos.
Para guardar a liberdade profissional de D. Luís e tornar coerente com a prática o discurso institucional de que as pessoas são livres na sua atuação profissional, e a Obra isenta de responsabilidade, D. Luís Valls-Taberner, que tinha tudo para ser o São Nicolau leigo do século XXI, deveria ter sido proibido de ir a Roma para saber como conduzir seus negócios. Ou essa vedação não existiu, ou ele não obedeceu. De qualquer maneira, temos aí um lance não canonizável do Opus Dei, cuja emenda é recomendável. Na primeira hipótese, o diretor espiritual se omitiu porque a estrutura local foi incapaz de lidar com um membro que, segundo uma mentalidade laical, tem uma importância transcendente (um banqueiro de altíssimo nível). Na segunda hipótese - a de que a vedação existiu, mas D. Luís não obedeceu - a única explicação, se D. Luís não era doido, é que, para ele, um ser dotado de mentalidade laical por vocação divina, Cristo lhe soava com mais força no tilintar das demandas financeiras de Roma do que na serena direção de sua alma em Madrid. De um modo ou outro, há um problema na mentalidade laical, e essa falha em impor e observar o limite necessário compromete os próprios princípios da secularidade, tão caros ao carisma operístico.
Minha provocação é, pois, que, em nome da laicidade de verdade, o cristão D. Luís não deveria ter ido ao centro da cristandade. Se a sua atuação profissional era livre e a sua alma já era guiada em Madrid, essa busca por uma obediência financeira ao governo central demonstra um desvio de omissão da Obra, seja na direção espiritual, seja na formação dos membros quanto ao alcance e força da mentalidade laical. Para proteger a verdadeira liberdade profissional de D. Luís, a instituição deveria, através da direção espiritual local e com a aquiescência de D. Luís, ter imposto limites claros e cortado essa ponte direta com o núcleo do governo da instituição para tratar de recursos angariados pelo banqueiro junto a seus clientes. O episódio demonstra que, quando convém ao governo, a mentalidade laical não é obstáculo para ingerências da Obra sobre a vida profissional dos membros, e só há a autonomia das realidades temporais quando isso é bom para livrar a Obra de escândalos como a falência do Banco Popular.