Marsili: Médico ou Monstro

Saturno Devorando os Filhos, de Goya

Decidi colocar as seguintes reflexões por escrito porque o nome do psiquiatra Ítalo Marsili tornou-se uma presença constante e, muitas vezes, ruidosa nas rodas de conversa com meus amigos e conhecidos. Ele é uma dessas figuras que parecem impossíveis de ignorar, despertando desde defesas fervorosas até críticas ácidas no meu círculo social. Além disso, no momento em que ele deixa de ser apenas um guru de internet para ventilar publicamente uma candidatura possível ao governo do Estado do Rio, sua figura passa a exigir um tipo de escrutínio que vai além da admiração ou do deboche; torna-se uma questão de interesse público. Deixo claro, entretanto, que nunca lhe apertei a mão nem troquei mensagens com ele. Sei que essa distância me impede de tocar a essência do homem real, mas é precisamente esse hiato que me permite tratar o fenômeno Marsili como um objeto de análise desapaixonada. O que me interessa aqui não é a intimidade de quem ele é entre quatro paredes, mas a projeção poderosa e paradoxal que sua sombra lança sobre a cultura, a política e o mercado de hoje.

Em primeiro lugar, haveria um certo conflito quando observamos o Guerrilha Way, a marca de Ítalo para sua  medicina. Historicamente, a prática terapêutica, seja na psiquiatria ou na psicologia, fundamenta-se no tradicionalíssimo segredo de ofício. A discrição não é apenas uma regra ética, mas uma garantia para que o terapeuta não crie embaraços ao desenvolvimento social do paciente. Tendo isso em mente, surge a inevitável provocação: como um profissional dessa área cria uma marca que, no limite, convida o público a consumir sua terapia com a mesma naturalidade com que se bebe uma Coca-Cola? Não haveria uma contradição em transformar uma atividade intrinsecamente sigilosa em um megafone publicitário?

A resposta é não, mas apenas se compreendermos o deslocamento de público e de propósito que sua engrenagem operou. Esse conflito ético e comercial só se sustenta se partirmos da premissa popular e estigmatizada de que "terapia é coisa de maluco". O grande salto de Marsili foi reposicionar o seu produto. O Guerrilha Way não é vendido como um tratamento psiquiátrico stricto sensu, mas como uma via de aperfeiçoamento pessoal e forja do caráter. O discurso resgata a ideia do cultivo das virtudes e da ordenação da vida, o que, de forma muito conveniente para a expansividade do negócio, dialoga com um público infinitamente maior do que o dos consultórios clínicos tradicionais. Ao transmutar a cura médica em aprimoramento moral, o problema do estigma se dissolve e dá lugar ao orgulho do pertencimento.

O que se observa, assim, é a incorporação de um apostolado a um plano de negócios altamente estruturado. Pessoalmente, vejo essa fusão com ressalvas: a lógica de mercado tende a engessar e pasteurizar o desenvolvimento humano, transformando reflexões que deveriam ser profundas em fórmulas de consumo rápido. Contudo, seria exagero negar qualquer eficácia ou a possibilidade de que dessa engrenagem redunde em algum bem real para quem a consome.

A questão que se impõe, superada a ética do sigilo, é o quanto esse bem entregue é inflacionado pelo marketing. Seria ingenuidade crer que a publicidade, seja de que tipo for, não hipertrofia o valor do que é vendido. No entanto, é preciso separar essa inflação mercadológica da natureza do lucro gerado. A crítica válida que se faz ao capitalismo diz respeito à dinâmica do acúmulo de capital desvinculado do trabalho produtivo — a riqueza que se retroalimenta sem gerar valor real, aprofundando desigualdades estruturais. A pergunta, portanto, é se o ecossistema criado pelo Ítalo tem como motor o capital acumulado, posto para render numa engrenagem de publicidade desumanizada, ou se o nosso doutor realmente alimenta e cura alma de quem se aproxima dele. O candidato sem dúvida dirá que sua riqueza não é fruto de rentismo, mas do labor de um superexecutivo, um empresário incansável que construiu e opera um império do bem.

Até que ponto, porém, isso não é mais um lance de marketing pessoal, dessa vez no cenário político? Essa questão está estreitamente ligada a outra, que é a lógica de sua expansão: o seu colocar-se na posição de modelo e levar, com isso, à criação de imitadores. Para escalar, o método precisa ser replicável, o que invariavelmente gera pequenos "Ítalos" pelo caminho. E é aqui que esbarramos em um paradoxo incontornável. Fora do âmbito estritamente religioso — onde imitar Cristo é um ato de devoção pacífica —, no mercadológico, ninguém imita sem rivalizar. Ter um imitador é, necessariamente, cultivar um rival. Há inúmeras formas de acumular capital, mas o modelo altamente personalizado em questão lucra justamente criando o exército que tentará disputar o seu próprio território. Como o criador resolve o problema da horda de rivais que ele mesmo treinou? 

A solução maquiavélica ou genial para esse impasse mimético foi, no caso, a criação do selo Marsili para profissionais de saúde. É o mecanismo perfeito para marcar a diferença enquanto se capitaliza sobre a semelhança. Ao instituir quem é certificado pela sua escola, a mensagem que se passa é clara, ainda que nas entrelinhas: "Esse sujeito é como eu, fala como eu e vende o que eu vendo; mas, no final das contas, sou eu quem senta na cadeira para dizer se ele é bom o suficiente para ser como eu". Congruente a essa certificação estão os movimentos, mais ou menos lógicos ou temperamentais, com que se aproxima ou escorraça os seus admiradores ou quem lhe busca a sabedoria nas redes sociais. 

Portanto, o problema, a meu ver, não estaria só na simbiose entre apostolado e dinheiro, que, dentro de certa mentalidade de catolicismo integral onde se move nosso personagem, é de fato muito difícil de desatar. Há outro paradoxo, mais palpável, que repercute inclusive no seu apelo eleitoral, e reside nessa manutenção forçada de uma hierarquia onde o criador jamais pode perder o controle sobre a criatura. Se já é triste ensinar a doutrina e ter que se confessar incapaz de dar o exemplo, é sem dúvida perverso dar a doutrina e o exemplo, mas precisar podar os que o seguem — tudo para garantir, com calculada indiferença, que no topo só exista espaço para um.

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