Nota sobre Eucaristia e Bíblia


Na instituição da Eucaristia, Cristo afirma que o pão é seu corpo e que o vinho é seu sangue. No entanto, Ele também diz, em outras passagens, que Ele é uma porta ou que é uma vinha da qual nós somos os ramos. E ninguém, em sã consciência, acha que nós, em sentido exato, somos plantas nem que Ele é uma porta material. Por que, pois, eu acredito na santa Eucaristia como a presença real de Cristo com sua carne e seu sangue e não só como mero símbolo? Além do concurso da Igreja e dos santos, ocorrem-me alguns motivos internos à Bíblia. 

É verdade que o sentido literal da Escritura, que o catecismo (CIC 116) afirma ser o primeiro sobre o que se funda os demais, nem sempre é literal no sentido de desprovido de figura de linguagem. Para acessar a verdade da Escritura, é necessário investigar em que modo de dizer um determinado assunto foi veiculado: se foi uma descrição exata ou figura. Para além disso, é possível que a descrição exata tenha outros sentidos, espirituais, além do mais evidente. Isso abre a possibilidade de a Eucaristia ser uma presença real como descrição exata e, ao mesmo tempo, um sinal. Cristo deixou a si mesmo na Eucaristia literalmente e, nela, um símbolo de seu amor por nós como um noivo deixa à noiva um presente como penhor de seu afeto.  

Mas nem por isso fica excluída a chance a instituição da eucaristia ser uma metáfora como a da porta ou da vinha, de modo que meu argumento ainda não é decisivo. Quando, porém, ajuntamos à possibilidade da presença real combinada com a carga simbólica o contexto da sinagoga de Cafarnaum relatado por São João, tudo fica claro e consonante com a tradição e a liturgia da igreja. Ao anunciar a Eucaristia, Cristo encontra uma resistência na audiência que seria inexplicável se suas palavras fossem ouvidas como mera figura. De qualquer maneira, não é o escândalo, demasiado humano, de Cafarnaum que garante a fé na presença real, mas sim o poder de Deus, cujas palavras são espírito e vida e podem, pois, transubstanciar o pão e o vinho. Nada obstante, o escândalo de Cafarnaum confirma que as palavras da instituição da Eucaristia são uma descrição exata, que não foi desmentida por Ele desde o começo.     


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