Onde Termina a Parte de César
| O Cristo da Moeda, de Ticiano |
Recentemente, tive uma troca de mensagens muito franca com um amigo sobre o Opus Dei, a reforma de seus estatutos e o atual momento da instituição. Frequentei a intimidade da Obra durante um bom tempo, o que me permitiu conhecer de perto e nutrir um profundo respeito por sua espiritualidade e por seu carisma. Não sei se estive à altura da oportunidade que esse contato com a instituição de São Josemaria me proporcionou. De qualquer maneira, minha conversa com esse amigo, que mais escutou do que falou, parece-me digna de uma reflexão mais ampla e, pois, queria compartilhá-la aqui.
Quem convive de perto com a Obra percebe rapidamente que expressões como "mentalidade laical" e "unidade de vida" remetem a conceitos que os membros e simpatizantes levam à oração e concretizam na prática, cada um à sua maneira, mas de modo convergente. No entanto, na hora de articular e justificar conceitualmente um propósito concreto tirado dessas abstrações, a maioria acaba ficando um pouco aquém. É compreensível, e isso ocorre com muitas outras ideias católicas. Poucos sabem definir teologicamente os contornos da ressurreição, por exemplo, mas muitos sabem, na prática, que enterrar os mortos (e não cremá-los) é o que soa mais coerente com essa fé. Por isso, francamente, as justificativas teóricas explícitas que me davam nunca me interessaram tanto. O que sempre me chamou a atenção foi o contexto das decisões institucionais em que essas justificativas operam, contexto no qual a mentalidade laical e a unidade de vida têm um papel relevante.
Tendo isso em mente, fiz ao meu amigo interlocutor a seguinte provocação, que estendo a vocês: em tese, o mais recomendável para a direção espiritual de uma alma é que ela seja conduzida por alguém sem interesses de governo temporal (o chamado foro externo). Por que, então, na prática da Obra, um membro do conselho local costuma ser o escolhido para atender à conversa fraterna dos demais membros?
Na autocompreensão do Opus Dei, isso se justifica pelo seu caráter estritamente secular, levado à prática pela mentalidade laical e pela unidade de vida. O século e suas urgências têm a sua importância, e um membro do governo, imerso nelas, não seria menos apto para conduzir uma alma por causa disso. Pelo contrário: para o numerário padrão, estar metido nesses assuntos horizontais e manter, ao mesmo tempo, um sentido vertical e sobrenatural profundo é exatamente o que o qualifica e o prova para a função de guiar outros à santidade. Notem a diferença sutil, mas abissal, para a mentalidade religiosa tradicional. Na mentalidade religiosa, diz-se: "Fulano é um bom guia espiritual apesar de estar imerso nos assuntos contingentes do governo". Na mentalidade laical da Obra, diz-se: "Fulano é um bom guia espiritual justamente porque sabe governar e cuidar das realidades temporais".
Até aí, tudo bem. Trata-se de uma diferença de carisma. O grande problema — e este talvez seja o ponto central da crise atual — surge quando o Opus Dei, em linha de colisão com esse arranjo secular e governamental para a direção espiritual, busca se eximir da responsabilidade pelos frutos dessa mesma estrutura, colocando-os na conta exclusiva da "liberdade dos membros" e de sua atuação profissional. Em outras palavras: na hora de dar a direção espiritual, a Obra escolhe quem tem mentalidade de governo, capaz, portanto, de aconselhar o que é melhor em termos de eficácia temporal (vista muitas vezes como condição para a eficácia apostólica). Mas, quando a situação degringola, a responsabilidade deixa de ser desse desenho institucional e passa a ser apenas da liberdade individual...
É exatamente isso que me vem à mente quando vejo o Papa Leão recebendo o jornalista Gareth Gore, que investigou a relação de membros da Obra com a falência do Banco Popular espanhol. O assunto central das conversas em Roma tem que ser esse. O problema não é, nem nunca foi, o folclore em torno do uso do cilício. A questão fundamental é em que medida o discurso da "liberdade nos assuntos temporais" se sustenta numa organização que amalgama direção espiritual e governo. Diante dessa reforma, o Opus Dei tem uma escolha a fazer. Ou assume uma direção de almas totalmente livre das amarras temporais e de governo (o que justificaria, aí sim, sua irresponsabilidade institucional em escândalos como o do Banco Popular); ou mantém uma direção espiritual vincada pela eficácia temporal e assume, de uma vez por todas, a corresponsabilidade pelas crises geradas. Qual seria a escolha mais própria e fiel ao carisma fundacional? A meu ver, sem dúvida, é a primeira. Mas isso já é assunto para outra conversa...