Paráclito
| Cristo diante de Pilatos, de Mihaly Munkacsy |
Estar em Jesus Cristo, onde não há condenação, é estar unido a Ele pelo amor. Esta união é o tema central de Romanos 8, anunciado já no primeiro versículo, e que é desenvolvido de uma maneira espetacular através de uma comparação entre a Antiga e a Nova Aliança. A Nova Aliança traz um poder que era desconhecido na Antiga: enquanto antes a Lei nos permitia apenas saber o que era certo e errado, agora recebemos a capacidade não só de saber, mas de fazer o bem. E isso acontece por conta do Espírito que nos é dado junto com Jesus Cristo. Esse dado é essencial e desfaz muita da dificuldade na compreensão dessa passagem do Novo Testamento.
Sondando o mistério da nossa redenção, São Paulo ensina que Deus, fazendo o que as abstrações da Lei não podiam, enviou o seu Filho na carne, na semelhança do pecado, e — o mais importante — condenou o pecado na carne. Ao sublinhar a encarnação de Jesus, Paulo nos dá uma boa pista sobre como a redenção opera em nós. Jesus foi julgado e condenado no tribunal do mundo como um criminoso e um transgressor. À primeira vista, portanto, não foi o pecado o condenado, mas Jesus Cristo. Por que, pois, Paulo diz que Deus condenou o pecado? Di-lo porque Deus, ao ressuscitar Cristo, inverteu os polos, passando um juízo de reprovação nos condenadores e de absolvição no condenado. Essa inversão responde a uma realidade humana fundamental: quem de nós gostaria de tomar parte e unir-se a um condenado? É por isso que, embora Cristo não precise da nossa absolvição objetivamente, nós precisamos absolvê-Lo no íntimo do nosso ser para conseguirmos nos conectar a Ele. É estritamente necessário que a inocência de Cristo seja atestada perante o tribunal da nossa própria consciência.
E quem nos dá a luz e a força para enxergar além do julgamento do mundo é o Espírito Santo Paráclito. A redenção se dá, portanto, por uma força do Espírito que faz com que Jesus, condenado pelo mundo, seja absolvido nos nossos corações como a própria inocência. A primeira eficácia do Paráclito em nós é atuar como esse Advogado que testemunha a inocência de Cristo à nossa consciência. Ao atestarmos Sua pureza e O absolvermos internamente, rompemos com a visão mundana e tornamos possível o nosso amor de união com Ele, que passa a se manifestar concretamente através das nossas obras, cumprindo em nós a justiça da lei. A profundidade dessa ação do Paráclito fica ainda mais evidente quando olhamos para os Evangelhos, especificamente no episódio em que Cristo é acusado de expulsar demônios pelo poder de Belzebu. Ali, os fariseus estão diante da bondade absoluta, mas o tribunal de suas consciências, corrompido pelo mundo, condena Jesus, chamando a Sua luz de trevas.
Não há contexto mais oportuno para Cristo alertar sobre o pecado contra o Espírito Santo. Esse pecado imperdoável não é outra coisa senão o pecado contra a inocência de Cristo. É resistir, de forma deliberada e final, à força e à luz do Espírito que tenta, a todo custo, atestar em nosso interior a pureza e a divindade do Filho de Deus. Quando sufocamos a voz desse Advogado interno e preferimos ver um criminoso onde há o Salvador, fechamos a única porta pela qual a graça pode entrar. Por outro lado, quando deixamos o Espírito agir, a inocência de Cristo resplandece em nós e a condenação desaparece.
Por fim, é com imensa sabedoria prática que a Igreja traduz essa profunda lição teórica sobre a nossa consciência cristã para a vida concreta através da normativa da confissão sacramental. A recusa obstinada em confessar-se revela-se, no limite, como uma vertente desse pecado contra o Espírito Santo. Afinal, confessar-se é entrar corajosamente no tribunal da própria consciência e dar o veredito invertido: reconhecer que o culpado sou eu, e não Cristo. Ao declarar o meu próprio pecado, eu atesto definitivamente a inocência d'Ele. Em contrapartida, não se confessar é recusar a luz do Paráclito e dizer, com a nossa omissão, que não confiamos na misericórdia de Cristo, que perdoa sempre, sem jamais revidar. Que o culpado seria, de fato, ele. Quando nos ajoelhamos no confessionário, absolvemos Cristo das acusações do mundo em nosso coração e, como resposta maravilhosa, somos nós mesmos absolvidos e justificados para, finalmente, habitarmos n'Ele pelo amor.