UMA PEQUENA LIÇÃO PARA GRANDES PEIXES


Videte enim vocationem vestram, fratres (...): 
quae stulta sunt mundi elegit Deus ut confundat sapientes, et infirma mundi elegit Deus, ut confundat fortia...

 

Muito já foi dito sobre a pedagogia do pescador, mas poucos se preocuparam em ensinar ao peixe como ser pescado. Como desculpa para tal deficiência, os mestres poderiam alegar que o peixe não é capaz de aprender arte alguma, muito menos a arte sublime de morrer.  O adestramento de peixes, no entanto, não é uma quimera. Ele deve focar não no aspecto substantivo do ser pescado, algo que qualquer lambari de águas rasas consegue fazer, mas sim numa qualidade, a de ser pescado com dignidade, de modo a não perder, na trânsito da vida, aquela nobreza que primeiro o fez atraente ao pescador.

A lição é simples. O peixe nobre ideal não é aquele que engole a linha, o anzol e a chumbada. A Igreja Católica, de fato, tem muita ciência e até, segundo certos parâmetros que eu diria ingênuos, uma boa dose de poder e dinheiro. Na sua busca por fieis, ela pode chamar atenção para esses atributos como forma de sedução. Ao peixe seduzido, todavia, cabe pensar que fazer-se católico só para participar desses bens destoa dessa própria nobreza que a Igreja julgou vislumbrar nele. Se, depois de pescado, esse peixinho abandonar a fé alegando abuso moral contra a disciplina dessas coisas humanas incutida pelo magistério divino, isso não é só deselegante. À evidência, trata-se de um discurso mal ajambrado para esconder que, no fundo, o peixinho pescado e lançado fora está mortalmente decepcionado com a falta de poder, dinheiro ou até de ciência que uma vida cristã austera traz consigo. 

O peixe nobre ideal, se não quer deixar de ser nobre para ser católico, precisa pelo menos aprender a engolir apenas o anzol com a isca. Trocando em miúdos, toda ciência, poder e dinheiro devem ser descartados para se ficar com Reino de Cristo, o elemento essencial que é envolvido por toda pompa e circunstância da Igreja. Quem nada em direção à barca buscando mais do que essa carne macia e esse ferro duro não encontra o que procura. E, quando a tempestade inevitavelmente açoita o barco e esse peixe interesseiro é lançado para fora, apegando-se a qualquer boia de heresia que encontre à deriva, ele descobre, tarde demais, que foi despojado não apenas da graça, mas de toda a sua antiga e oceânica nobreza.

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